Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Pensamentos

"Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança"

Benjamin Franklin.

Sábado, Outubro 17, 2009

O Navio de Teseu

O navio com que Teseu e os jovens de Atenas retornaram de Creta tinha trinta remos, e foi preservado pelos atenienses até o tempo de Demétrio de Falero e isto porque eles removiam as partes velhas que apodreciam e iam colocando outras partes novas.
Assim, o navio tornou-se motivo de discussão entre os filósofos com alguns dizendo que o navio era o mesmo, e outros dizendo que não era.
Quando cada componente dum navio foi trocado pelo menos uma vez, o navio continua a ser o mesmo?

Segunda-feira, Julho 23, 2007

Estão a matar o desejo!

Lembro-me de, há alguns anos, me ter oferecido para passar uma tarde com os filhos de uns amigos. Os pais estavam a trabalhar e as crianças ficavam aborrecidas em casa. Planeei levá-las a espaços diferentes que lhes proporcionassem novas actividades, programei percursos e organizei jogos, e até me aventurei na compra de uns pequenos “mimos”. Suponho que se tenham divertido mas, de facto, apenas retive um momento fugaz desse dia: ofereci um gelado (“dos bons” – diria eu; “que insignificância” – responderiam vós) e, perante a total ausência de reacção, tendo perguntado se não gostavam, uma das crianças disse-me ser já o terceiro do dia.
Fiquei estupefacta! Não porque não houve agradecimento da oferta, mas porque não houve alegria no receber.
Desde então reparo naquela criança que faz birra no supermercado e que os pais se apressam a acalmar entregando o objecto pretendido ou aquela outra que, em frente do escaparate dos doces, recusa todos, não obstante a insistência dos pais em lhe quererem dar o que ela escolher. Estão a matar o desejo! E sem desejo nem a criança nem nós nos desenvolvemos ou podemos ser felizes. É o desejo que nos torna responsáveis pela eleição dos fins, que estimula à descoberta dos melhores meios, que confere mérito ao nosso esforço, e que nos recompensa com a felicidade que advém da dificuldade e até da natureza transitória da posse... porque, afinal, o desejo tem de persistir... Aristóteles disse-o no séc. III a.C., tê-lo-emos esquecido no séc. XXI?

Maria do Céu Patrão Neves in Jornal Diário a 2007-07-20

Sexta-feira, Julho 13, 2007

“Escolhendo-me, escolho o homem”

Opinião

A primeira vez que li não compreendi: “escolhendo-me, escolho o homem”. Avancei no texto de 1948 do filósofo Jean-Paul Sartre para confirmar que o sentido mais evidente da expressão era afinal também o mais genuíno, não obstante a estranheza que pudesse causar. Toda a “escolha” é sempre, inevitavelmente, a expressão de um valor, e tanto o que escolhemos para nós como o modo como escolhemos ser são testemunhos do que valorizamos, do que designamos por “bom” ou “bem”. Escolhemos para nós sempre o que consideramos ser melhor (mesmo se afirmássemos estar a escolher o pior seria ainda o melhor para nós) pelo que, paralela e implicitamente, rejeitamos outras escolhas, destituímos outros pretensos valores. Por isso “escolhermo-nos” é também escolher um modelo de pessoa, é escolher os outros ou como todos deviam ser; é escolher a humanidade.
Sartre destaca este aspecto para acentuar a enorme responsabilidade que nos incumbe em cada escolha. Porque, afinal, nunca escolhemos apenas para nós ou a nós próprios; quando decidimos agir e ser de um determinado modo, quando “nos escolhemos”, estamos a indicar como consideramos que os outros deviam agir e pensar, estamos a “escolher os outros”. Por isso – conclui o autor – devemos ter sempre presente a pergunta: “Que aconteceria se toda a gente fizesse o mesmo?”

Maria do Céu Patrão Neves in Jornal Diário 2007-07-13

«Mais Filosofia»

«Mais Filosofia» é uma rubrica - chamemos-lhe assim, cuja iniciativa partiu e está a ser desenvolvida e dinamizada pela Área de Filosofia da UAç.
Esta área de Filosofia engloba professores e ex-alunos de Filosofia da Universidade dos Açores bem como o Centro de Estudos Filosóficos.

A intenção de trazer mais Filosofia às nossas vidas passa por uma série de artigos, publicados às sextas feiras nos seguintes jornais regionais:
- Açoriano Oriental, versão papel.
- Expresso das Nove, versão papel.
- Jornal Diário, também disponível online no endereço www.jornaldiario.com

Nós por cá tentaremos acompanhar e divulgar as publicações, assinalando os respectivos autores, e esperar que gostem. Que vos façam pensar.
Escusado será dizer que se aceitam sugestões e comentários relativos aos textos.

Segunda-feira, Julho 09, 2007

Não leia este artigo!

É verdade. Não leia este artigo, pois vamos falar de algo que - não interessa a ninguém.
Vamos falar de homens, de saberes, de pensar e de filosofia.
Filosofia, isso o que é? Filosofia, para que é que serve? Dá dinheiro?
Respondendo à primeira questão, apenas com alguns filósofos, diríamos que Hegel mandava os seus alunos lerem os seus livros; Kant defendia que era necessário ensinar a pensar; Ricoeur chamava a atenção para a importância da compreensão e da captação do sentido, de um pensamento consciente analítico e crítico; José Enes envereda pela hermenêutica e Gustavo de Fraga embrenha-se na fenomenologia. Porém, todos eles compreenderam algo de importante e pretenderam, nos seus diferentes campos de investigação, partilhar esse conhecimento com os demais. Levar-nos, muitas vezes, pela mão, até entendermos e contemplarmos aquilo que tiveram a ousadia ou apenas a felicidade de poderem perceber.
Filosofia? Tem a ver com quê? Dá emprego?
Parece que ninguém sabe…
No entanto, no café, ouvimos falar em “filosofia do futebol” e todos os presentes percebem do que se está a falar. Fala-se de “filosofia governamental” que minoriza a importância da Filosofia no ensino secundário, e todos contestamos. Defende-se a “filosofia do curso” e encerram-se cursos de Filosofia. Todos reclamamos a nossa “filosofia de vida”, e assumimo-(la) com firmeza e determinação.
Afinal, aquilo que parecia a princípio complicado e até mesmo excepcional, reservado só para alguns espíritos esclarecidos, torna-se uma vulgaridade do discurso quotidiano que todos parecem entender.
Enfim, o que se entende por filosofia?
Eu bem o avisei para não ler este artigo.

Gabriela Castro in Açoriano Oriental a 06.07.2007

Sexta-feira, Julho 06, 2007

“Eu só sei que nada sei”

Opinião

“Eu só sei que nada sei” é por certo a afirmação de Sócrates que mais decisivamente o imortalizou. Repete-se ainda hoje amiúde ora jocosamente, devido ao paradoxo que exprime, ora ironicamente, pelo sentido contrário que pretende evocar, ora eruditamente, na citação de um reputado mestre. Talvez tenha sido uma destas intenções, ou até as três simultaneamente, a perpetuarem o aforismo no conhecimento comum. A mim, porém, apraz-me pensar que é esta magia de condensar uma profunda sabedoria na simplicidade de uma única frase que verdadeiramente a eternizou.
A nossa justa valorização do conhecimento tende a converter todos em pequenos grandes especialistas que emitem opinião sobre tudo com uma invariável e inflexível autoridade. Falam sem ouvir, elevando progressivamente a voz num crescente ensurdecer da sua ignorância. Não se interrogam, nem hesitam; sabem! Porém desconhecem que quem tudo sabe nada aprende. Só quem se questiona e duvida, só quem se reconhece desconhecer pode vir a aprender.
A ignorância é a origem de todo o saber.

Maria do Céu Patrão Neves in Jornal Diário a 2007-07-06

Quinta-feira, Abril 27, 2006

A Diagonal da Vida

"Ao olharmos o caminho que percorremos na vida, ao abarcarmos o seu «erróneo curso labiríntico» (Fausto), não podemos deixar de ver muita felicidade malograda, muita desgraça atraída, e talvez facilmente exageremos nas repreensões a nós mesmos. O curso da vida não é certamente a nossa obra exclusiva, mas o produto de dois factores, a saber, a série dos acontecimentos e a das nossas decisões. Séries que sempre interagem e se modificam reciprocamente. Além disso, há o facto de que, em ambas, o nosso horizonte é sempre bastante limitado, na medida em que não podemos predizer com muita antecipação as nossas decisões e muito menos prever os acontecimentos; na verdade, de ambos conhecemos com justeza apenas os acontecimentos e decisões actuais.
Sendo assim, enquanto o nosso alvo está longe, não podemos dirigir-nos directamente para ele, mas só por aproximações e conjecturas, amiúde tendo de bordejar. Tudo o que conseguimos é tomar decisões sempre segundo a medida das circunstâncias presentes, na esperança de fazê-lo bem, para desse modo nos aproximarmos do alvo principal. Na maioria das vezes, portanto, os acontecimentos e as nossas intenções básicas são comparáveis a duas forças que agem em direcções opostas, sendo a diagonal resultante o curso da nossa vida."


Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'


... «O Homem é aquilo que sabe» Francis Bacon ou «Sou eu e as minhas circunstâncias» Ortega Y Gasset - ? - Pode ser apenas retórica a pergunta, mas aceitam-se bitaites. ;)

Quinta-feira, Abril 13, 2006

...

É só mais um bocadinho por favor, juramos que ainda estamos deste lado de cá e prometemos mais filosofia em breve.
Beijos e abraços.

Segunda-feira, Março 20, 2006

Fernando Gil

Dados biográficos Lisboa, 19 Mar (Lusa) - O filósofo português Fernando Gil morreu, hoje, em Paris, aos 69 anos, vítima de doença prolongada, revelou fonte do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
Fernando Gil, nasceu a 3 de Fevereiro de 1937, em Moçambique, onde fez o liceu. Estudou sociologia, durante um ano, na Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, partindo de seguida para Lisboa, onde se licenciou em Direito. Em 1961, parte para Paris, onde se licencia em Filosofia pela Universidade da Sorbonne.
Mais tarde, doutorou-se em Lógica, na Universidade de Paris, de que resulta a publicação da tese «La Logique du Nom». Em 1976, começou a leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa, integrando posteriormente o Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde era professor catedrático desde 1998.
Ensinou em várias universidades europeias e sul-americanas, como as Universidades de Porto Alegre e de São Paulo, e na Universidade Johns Hoppkins, em Baltimore. A publicação, em 1984, de Mimesis e Negação, valeu-lhe o Prémio Ensaio do Pen Club, que voltará a receber com Viagens do Olhar, em 1998. Edita ainda Provas, em 1998, Tratado da Evidência, em 1993, e Modos da Evidência, em 1998.
Traduziu para português, autores como Karl Jaspers, Romano Guardini, Cesare Pavese e Merleau-Ponty. Em Lisboa, fundou e dirigiu a revista Análise.
Foi consultor do ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago, e do Presidente da República, Mário Soares, durante os seus dois mandatos.
Recebeu, em 1993, o Prémio Pessoa e foi galardoado com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 1992. A Universidade de Aveiro nomeou-o ’doutor honoris causa’ e o governo francês agraciou-o com o título de Cavaleiro da Ordem das Palmas Académicas.

in Visão Online 20 Março de 2006

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Condição Humana

(...) Vivemos, com efeito, na era do ser humano em aberto, a condição humana encontra-se actualmente, no estaleiro. (...)
Se nos quisermos orientar para o exercício duma reflexão crítica e prospectiva é conveniente começar por selecionar uma tese positiva: o estatuto em que a condição humana se encontra, hoje, situa-se perfeitamente no clima temático da modernidade, que pode ser remetido, como se de um momento originário se tratasse, para o diálogo entre Deus e Adão na Oratio (1486) de Pico Della Mirandola: nesse texto o que caracteriza a essência do conceito de humanidade é o seu carácter novo e incompleto, aberto e indeterminado. O ser humano é a criatura que simultaneamente é criadora de si própria. (...)
Se a humanidade não se perdeu, na exacta medida em que ainda não se havia encontrado, porquê então a existência de um mal-estar generalizado, um mal-estar perante o qual a nossa cultura, na multiplicidade das suas manifestações, parece querer desviar os olhos?
As respostas são também múltiplas. Por várias vezes, e de múltiplos modos, perdemos os instrumentos de navegação, e ficámos com o sentimento de que não rumamos para o cumprimento dum destino, mas antes que nos limitamos a andar à deriva.
Passemos em revista breve alguns dos sinais dessa constante perda de bússola, consitutiva do regime em que tem funcionado a cultura moderna:
a) Houve o claro sentimento/percepção de uma mudança de rota: a perda da noção de humanidade associada ao direito natural, como reacção à Revolução Francesa, que conduziu à manutenção do esclavagismo nos EUA, ao imperialismo-nacionalismo e colonialismo europeus, e ao climax de tudo isso no nazismo.
b) Crise da ideia de progresso como ideal-reitor, nas suas múltiplas formas.
c) Ruptura na ideia de confiança cega na aliança da ciência com a tecnologia (Chernobyl e contestação ecológica).
d) Descrença na ideia do papel libertador das instituições (crise do Estado): depois da passagem do Estado soberano, para o Estado nacional, vivemos no dilema de saber se a época que se abre aponta para um Estado cooperativo ou para uma estranha abolição do Estado, um recuo a uma nova era fragmentar?
e) Abandono da tese de um fim-da-história redentor e justificativo. As teodiceias laicas estão em agonia profunda. O que agora se pretende é que a história não acabe...
f) Crise na crença do papel dos valores éticos e solidários como factor de emancipação da humanidade: o testemunho contrário da fome e das múltiplas espécies de segregação subsistentes (nunca houve, simultaneamente, tanta riqueza, nem tanto sofrimento sobre a Terra...).
g) Cepticismo quanto à crença no valor principal da nossa tradição iluminista, quanto à razão como factor de transparência na condução da história humana e no alargamento da esfera controlada pela própria deliberação racional: A racionalidade parece subordinar-se ao primado de uma arquitectura pulsional, que parece estender-se não só ao individuo como à sociedade; parece termos passado da disciplina das paixões ao espectáculo da sua desinibição compulsiva.
h) Perda dos mecanismos de controlo democrático sobre a prospecção construtiva do futuro.
i) Desencanto no choque da globalização como experiência de dezenraizamento e injustiça em vez de comunhão e partilha.
j) Emergência de um profundo sentimento de culpa (mesmo que débil e confusamente formulado) em relação às gerações futuras e em relação às outras criaturas que a intensidade do nosso presente coloca em causa. É aí, aliás, que reside a demanda por um, ainda muito nebuloso, horizonte de desenvolvimento sustentável.
Em síntese: parece ter-se realizado uma das advertências nietzscheanas - perdemos Deus, mas ainda não ganhámos a altura e a distância em que poderíamos dispensar os ídolos.
Já não somos sociedades ávidas de progresso e de futuro, porque tememos a nossa transformação em sociedades devoradoras de futuro.

Viriato Soromenho-Marques (Univ. de Lisboa), Crise Ambiental e Condição Humana. Actas do colóquio Ética Ambiental: uma ética para o futuro. Coordenação de Cristina Beckert. 2001.
*(o negrito no texto é meu.)

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Conjugar Verbos

Deixo-vos uma sugestão.
Em caso de dúvidas na escrita, mais que não seja para aqueles que se preocupam minimamente com isto, até porque cultura não é só informação, é também saber usar a nossa língua - e já que por aqui todos se lêem uns aos outros, aprendendo (... ou desaprendendo) com isso - faz sentido apelar à responsabilidade em primar pelo mais correcto, e já agora, incondicional e/ou implicitamente, prestar um bom serviço público.
Encontrei este link sobre a conjugação de verbos, que é uma das nossas «desgraças» mais frequentes. Não está muito completo, e por tal, não deve dispensar a leitura a uma gramática, mas já é qualquer coisa para os entretantos.
Muitas vezes se lê, por exemplo: «andasse» em vez de «anda-se» ou vice-versa (entre outros verbos).
É frequente trocar-se o Imperfeito do Conjuntivo (andasse) pelo Presente Indicativo (anda-se) de verbos reflexos (aqueles onde recai a acção no sujeito: «eu lavo-me»; «tu lavas-te»; ...) ou trocá-lo pelo uso da particula apassivante «se» (por exemplo: «Em Portugal anda-se mal»), que substitui uma entidade indefinida.
Também me estive a informar com a Gata Preta que disto sabe muito mais do que eu!
Bom uso e aproveitem para dar uma vista de olhos e tirar dúvidas.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

Mitos e Razões

"Uma vez que a lógica não é apenas argumento válido, mas também reflexão sobre os princípios da validade, esta só aparecerá naturalmente quando já existe à disposição um corpo considerável de inferências ou argumentos. A investigação lógica, a de pura narrativa, não é suscitada por qualquer tipo de linguagem. A linguagem literária não fornece material suficiente de argumentos e inferências. As investigações em que se pretende ou procura uma demonstração é que naturalmente dão origem à reflexão lógica, uma vez que demonstrar uma proposição é inferi-la validamente de premissas verdadeiras. Há duas condições para a demonstração, as premissas verdadeiras e os argumentos válidos.
Do ponto de vista lógico, a distinção importante é que a premissa demonstrativa é verdadeira e necessária enquanto a dialéctica não o é necessariamente. Na demonstração começamos com premissas verdadeiras e chegamos necessariamente a uma conclusão verdadeira, por outras palavras, temos uma demonstração. No argumento dialéctico, pelo contrário, não se sabe se as premissas são verdadeiras e não é necessariamente que a conclusão é verdadeira. Se nos aproximamos da verdade dialéctica é por via indirecta.
Existem 3 tipos diferentes de linguagem nas quais se procura ou se exige demonstração. Na matemática pura pretende-se demonstrar verdades abstractas e a priori, em metafísica pretende-se demonstrar proposições muito gerais sobre a estrutura do universo e, na linguagem de todos os dias, especialmente na linguagem política e jurídica, procura-se demonstrações de proposições contingentes."

William Kneale & Martha Kneale - O Desenvolvimento da Lógica (Gulbenkian)


"O mito surge-nos, deste modo, como uma conversão simbólica de atitudes e crenças próprias da consciência comum e/ou do imaginário social efectivo – conversão esta que se processa através de relatos orais colectivamente elaborados e aceites, e que propende, por vezes, a uma justificação a posteriori dos ritos e da própria ordem sócio-cultural vigente, e, de um modo mais geral, a dar (ou antecipar), resposta a inquietações comunitárias frequentemente ainda não formuladas, a respeito dos diversos níveis da condição humana e da sua inserção na ordem cósmica."

Francisco Sardo - Logos e Racionalidade (Casa da Moeda)

Segunda-feira, Janeiro 09, 2006

[sincronicidade]

... de [Luciana Melo] e [Vítor Leal Barros]

Domingo, Janeiro 08, 2006

...

Mostramos ser democráticos, acima de tudo, quando sabemos perder.
É saber aceitar as preferências dos outros e não assumir que a maioria é toda burra.
Iluminados são os candeeiros.

Quinta-feira, Dezembro 29, 2005

Bom Ano!

Votos de sabedoria e de bom senso para 2006.
Boas entradas e divirtam-se muito!

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

Julián Marías

«Muere el filósofo Julián Marías.
Madrid, 15 dic (EFE).- El filosofo y escritor Julián Marías murió esta mañana en Madrid en su domicilio familiar, a los 91 años, tras una larga enfermedad, informaron a Efe fuentes familiares. Los restos mortales de Marías serán trasladados al tanatorio de la Paz, en lacarretera de Colmenar, y serán enterrados mañana, viernes, en el cementeriomadrileño de la Almudena, aunque la hora está por precisar. Alumno y continuador de la obra filosófica de José Ortega y Gasset y XavierZubiri, Marías era miembro de la Real Academia de la Lengua desde 1964 y fuesenador por designación real de 1977 a 1979. Nacido en Valladolid, en 1914, el pensador es autor de numerosas obras, entrelas que destacan "Historia de la Filosofía", "Idea de la metafísica", "Laescuela de Madrid", "Antropología filosófica" y "España inteligible".»

Sexta-feira, Dezembro 09, 2005

:)

Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

O solitário

"O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite."

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

Terça-feira, Novembro 29, 2005

1 ano

1 ano de Filosofia.
Obrigado a todos que por cá passaram e aos que vão passando.

Bioética

Bioética ou ética da vida. A bioética pode ser definida como um estudo interdisciplinar que procura estabelecer as normas que devem reger a acção no campo da intervenção técnico-científica do homem sobre a sua própria vida.

Progressos.
O século XX foi marcado por enormes progressos no domínio das ciências médicas, que permitiram curar muitas doenças consideradas incuráveis e sobretudo prolongar a vida humana (aqui lembro Saramago, que em ficção, no seu novo livro «As Intermitências da Morte» trata o assunto).
Entre os avanços científicos que o permitiram destacam-se os seguintes:
- A introdução das sulfamidas e dos antibióticos que permitiram controlar as infecções.
- A substituição dos orgãos em falência (diálise, ventilação mecânica, transplantes de orgãos, etc).
- A identificação do código genético e das leis que presidem à formação da vida (inseminação artificial, engenharia genética, etc).
- O desenvolvimento das técnicas de diagnóstico (radiografias, ecografias, diagnóstico pré-natal, etc)
Estes extraordinários progressos alteraram por completo a pratica da medicina, que passou a contar com muitos mais agentes, assim como a própria relação do homem com a própria ciência.

Problemas Éticos.
A evolução das ciências médicas até ao século XX processou-se de um modo que não suscitou grandes problemas éticos, estando os princípios fundamentais consagrados no célebre "Juramento de Hipócrates". As experiências médicas eram realizadas e por serem muito limitadas, não suscitavam grandes problemas.
Os progressos que se registaram a partir do século XX só foram possíveis porque as ciências médicas passaram a ter uma enorme complexidade e a envolverem grandes interesses económicos, onde participam uma enorme rede de agentes (médicos, farmacêuticos, biólogos, químicos, engenheiros, etc) e instituições (empresas, fundações, universidades, etc). Os interesses passaram a ser múltiplos, e nem sempre prevalecem os do saber.
Na primeira metade deste século ocorreram muitas experiências científicas que colocaram em causa os princípios mais elementares da dignidade da pessoa humana. Os casos mais conhecidos, mas não os únicos, deram-se na Alemanha durante o domínio nazi (1933-1945) onde milhares de seres humanos foram mortos em experiências médicas.
Na segunda metade do século XX, permaneceram os avanços espectaculares na biologia, biotecnologia e medicina.
Ora muitos destes progressos continuam a usar seres humanos como cobaias, muitas vezes sem o seu conhecimento. A utilização de animais passou igualmente a ser questionada, sobretudo quando a estes são infligidos sofrimentos desmesurados.
Cresceram também de forma espectacular as indústrias ligadas às áreas da saúde, nomeadamente as empresas farmacêuticas que se tornaram verdadeiros potentados multinacionais. Fruto destes progressos científicos e do dinheiro delas obtido, muitas experiências passaram a ser feitas com um único objectivo: a projecção mediática (fama) e o lucro dos laboratórios, médicos ou cientistas que as realizam. As "doenças" passaram a ser um dos negócios mais lucrativos do mundo, facto que só por si alterou radicalmente as relações entre o médico e o doente. Este último sente-se frequentemente explorado por redes de interesses que apenas consegue vislumbrar os seus contornos.
O problema dos limites da ciência e das experiências médicas, assim como os interesses nelas envolvidas, passou a estar na ordem do dia.
Em muitas áreas tornou-se cada vez mais difícil compatibilizar o progresso científico com o respeito pela vida humana e os valores culturais assumidos como estruturantes das nossas sociedades.
A diversidade de temas abordados na bioética espelham melhor que nada a complexidade que adquiriram actualmente estes problemas.

Principais temas da bioética:
1. O diagnóstico pré-natal; conselhos genéticos; eugenia fetal; terapia genética; práticas abortativas; esterilização masculina e feminina por diversos motivos;
2. Reprodução humana "artificial" ou assistida em todas as suas modalidades e suas correspondentes implicações técnicas (bancos de esperma, bancos de embriões, mães de aluguer, etc);
3. Experiências com seres humanos, embriões e cadáveres em qualquer fase do ciclo vital:
4. Informações clínicas e a sua comunicação ao paciente; reanimação; eutanásia e direito a uma morte digna;
5. Terapia e manipulação genética em todas as suas formas;
6. Suicídio e ajuda ao suicídio;
7. Transplantes de orgãos humanos;
8. Trans-sexualidade:
9. Investigação e desenvolvimento de armas biológicas e químicas;
10. Biogenética animal e vegetal.

*texto retirado da Filosofia no Sapo.

Sexta-feira, Novembro 18, 2005

Mais uma explicação para França

"(...) Numerosos estudos internacionais - quer os de política educativa, quer os que incidem na avaliação dos desempenhos reais - e não só das classificações ou diplomas - dos alunos e das escolas (OCDE, IEA, Comissão Europeia) - alertam recorrentemente para os problemas agravados de exclusão social que o facto de não ter aprendido já está a provocar dramaticamente nas sociedades actuais. São já, na sua grande maioria, alfabetizados e escolarizados e escolarizados sem sucesso - na realidade, iletrados funcionais e desenraizados sociais - os elementos de todas as bolsas de exclusão ou marginalidade das sociedades actuais.

Nem a economia, nem o mercado de trabalho, nem o díficil equilíbrio das tensões sociais podem compadecer-se com a existência de bolsas crescentes desta população quase iletrada, afastada do acesso básico à informação e ao conhecimento, informação e conhecimento que se constituem hoje como a principal chave para a inclusão social, para a rentabilidade económica, e também para o bem-estar social e a estabilidade pessoal e profissional.

A mesma escola que se confrontou com a massificação do acesso à educação, desafio já genericamente superado, encontra-se hoje perante uma situação bem mais complexa: a premência da subida do nível educativo real das populações. Trata-se, assim, nos nossos dias, da necessidade de "massificar o sucesso", ou seja, garantir a todos uma qualidade educativa satisfatória, não podendo mais confinar-se a escola ao papel de assegurar uma socialização de base e uma instrução elementar para a maioria, com aprendizagem de melhor nível apenas reservada a alguns.

Em síntese, o grande problema da escola é hoje o de responder satisfatoriamente a todos, garantindo-lhes um bom apetrechamento educativo - sendo que esses todos são cada vez mais diferentes (Roldão, 1998)."

in
Roldão, Maria do Céu. Gestão Curricular, fundamentos e práticas. Ministério da Educação, 1999, pp.33.

Tolerância

*Este é o logo de 1995 - Ano da Tolerância - proclamado pelas Nações Unidas.
Imagem desenhada por Manuel Arquier.

*Estas são as bandeirinhas da Tolerância adoptadas pela UNESCO. Veja a sua significação.

HOW CAN INTOLERANCE BE COUNTERED?

1. Fighting intolerance requires law:
Each Government is responsible for enforcing human rights laws, for banning and punishing hate crimes and discrimination against minorities, whether these are committed by State officials, private organizations or individuals. The State must also ensure equal access to courts, human rights commissioners or ombudsmen, so that people do not take justice into their own hands and resort to violence to settle their disputes.

2. Fighting intolerance requires education:
Laws are necessary but not sufficient for countering intolerance in individual attitudes. Intolerance is very often rooted in ignorance and fear: fear of the unknown, of the other, other cultures, nations, religions. Intolerance is also closely linked to an exaggerated sense of self-worth and pride, whether personal, national or religious. These notions are taught and learned at an early age. Therefore, greater emphasis needs to be placed on educating more and better. Greater efforts need to be made to teach children about tolerance and human rights, about other ways of life. Children should be encouraged at home and in school to be open-minded and curious.
Education is a life-long experience and does not begin or end in school. Endeavours to build tolerance through education will not succeed unless they reach all age groups, and take place everywhere: at home, in schools, in the workplace, in law-enforcement and legal training, and not least in entertainment and on the information highways.

3. Fighting intolerance requires access to information:
Intolerance is most dangerous when it is exploited to fulfil the political and territorial ambitions of an individual or groups of individuals. Hatemongers often begin by identifying the public's tolerance threshold. They then develop fallacious arguments, lie with statistics and manipulate public opinion with misinformation and prejudice. The most efficient way to limit the influence of hatemongers is to develop policies that generate and promote press freedom and press pluralism, in order to allow the public to differentiate between facts and opinions.

4. Fighting intolerance requires individual awareness:
Intolerance in a society is the sum-total of the intolerance of its individual members. Bigotry, stereotyping, stigmatizing, insults and racial jokes are examples of individual expressions of intolerance to which some people are subjected daily. Intolerance breeds intolerance. It leaves its victims in pursuit of revenge. In order to fight intolerance individuals should become aware of the link between their behavior and the vicious cycle of mistrust and violence in society. Each one of us should begin by asking: am I a tolerant person? Do I stereotype people? Do I reject those who are different from me? Do I blame my problems on 'them'?

5. Fighting intolerance requires local solutions:
Many people know that tomorrow's problems will be increasingly global but few realize that solutions to global problems are mainly local, even individual. When confronted with an escalation of intolerance around us, we must not wait for governments and institutions to act alone. We are all part of the solution. We should not feel powerless for we actually posses an enormous capacity to wield power. Nonviolent action is a way of using that power-the power of people. The tools of nonviolent action-putting a group together to confront a problem, to organize a grassroots network, to demonstrate solidarity with victims of intolerance, to discredit hateful propaganda-are available to all those who want to put an end to intolerance, violence and hatred.

Terça-feira, Novembro 15, 2005

Dia Mundial da Filosofia - Atelier de Filosofia

Dia Mundial da Filosofia
Proclamado pela UNESCO
17 de Novembro de 2005
“[...] A filosofia é uma ‘escola da liberdade’ [...], uma escola da solidariedade humana. [...] O ensino da filosofia contribui para a formação de cidadãos livres.”
(UNESCO, Dezembro, 2004)

Atelier de Filosofia
Universidade dos Açores

O “Dia da Filosofia” começou a ser celebrado pela UNESCO desde o ano de 2002. Porém, apenas no passado mês de Outubro de 2005, por ocasião da 33ª sessão da Conferência Geral da UNESCO, foi formalmente proclamado, passando a ser assinalado na terceira quinta-feira do mês de Novembro. No próximo dia 17 de Novembro celebra-se, pela primeira vez a título oficial, o Dia Mundial da Filosofia.
O Grupo de docentes de Filosofia e os alunos do Seminário de Licenciatura em Filosofia, da Universidade dos Açores, vão assinalar este Dia através da organização de um Atelier de Filosofia que, como a designação sugere, consiste num conjunto de actividades destinado a permitir aos alunos relacionarem-se com o pensamento filosófico de uma forma interactiva. Para o efeito, estarão montadas cinco “bancas de trabalho”: “o Passeio dos Filósofos” (reprodução do “Jogo da Glória”); “Ver, Ouvir e Pensar” (combinação de imagens, textos e música); “Muda de Canal” (apreciação de anúncios publicitários); “Jogos de Pensamento” (construção de palavras cruzadas e banda desenhada); “Forum de discussão” (diálogo polémico). Paralelamente, apresentar-se-ão dois posters temáticos, um dedicado a Jean-Paul Sartre, cujo centenário do nascimento se celebra em 2005, e um outro dedicado a Paul Ricoeur, falecido no presente ano.
No dia 17 de Novembro, a Universidade dos Açores manterá um “espaço aberto” (Edifício da Aula Magna), das 9:30 às 17:30 horas, convidando todos os interessados a visitarem e a “trabalharem” nas diversas bancas deste Atelier de Filosofia.
Convidamo-los para uma experiência única!

Maria do Céu Patrão Neves
(Organização)

Segunda-feira, Novembro 14, 2005

A Sexualidade Humana

Mais um documento de referência, desta feita, elaborado pelo Prof. Doutor Michel Renaud.
A quem possa interessar, favor ver na página do CNECV.

Terça-feira, Novembro 08, 2005

Da gestação ao colapso

«O acontecer histórico não é um fenómeno de geração espontânea ou de produção brusca. Não resulta também da simples associação de vontades, nem se esgota com a própria vivência. Germina lentamente, sem prejuízo dum eventual momento explosivo. A sua energia projecta-o para além de si mesmo, marcando, de um modo ou de outro, o devir histórico.»

Graça e J.S. da Silva Dias, in Os primórdios da Maçonaria em Portugal, vol I, tomo II. Lisboa 1986.

Sábado, Outubro 22, 2005

Dignidade Humana

"Em resumo, o termo Dignidade Humana é o reconhecimento de um valor. É um princípio moral baseado na finalidade do ser humano e não na sua utilização como um meio. Isso quer dizer que a Dignidade Humana estaria baseada na própria natureza da espécie humana a qual inclui, normalmente, manifestações de racionalidade, de liberdade e de finalidade em si, que fazem do ser humano um ente em permanente desenvolvimento na procura da realização de si próprio. Esse projecto de auto-realização exige, da parte de outros, reconhecimento, respeito, liberdade de acção e não instrumentalização da pessoa. Essa auto-realização pessoal, que seria o objecto e a razão da dignidade, só é possível através da solidariedade ontológica com todos os membros da nossa espécie. Tudo o que somos é devido a outros que se debruçaram sobre nós e nos transmitiram uma língua, uma cultura, uma série de tradições e princípios. Uma vez que fomos constituídos por esta solidariedade ontológica da raça humana e estamos inevitavelmente mergulhados nela, realizamo-nos a nós próprios através da relação e ajuda ao outro. Não respeitaríamos a dignidade dos outros se não a respeitássemos no outro.
Na ética moderna, a dignidade humana exprime-se em um 'nós-humanidade' que não é a soma dos 'eus' individuais. Segundo Levinas, "'nós' não é o plural de 'eu'". O ponto de partida para a expressão dessa dignidade situa-se na totalidade dos seres humanos e por isso foi possível afirmar-se que enquanto um ser humano não for livre, nenhum ser humano será livre.
A socialização não é porém uma diluição do 'eu' no conjunto da comunidade humana. Como vemos todos os dias, todo o ser humano aspira a repetir o seu "paraíso perdido", que foi a fusão total com a mãe. Daí a procura, por vezes desenfreada, de uma relação dual. Ora, o indivíduo acede à sua condição de ser único quando torna possível essa passagem da fusão com a mãe à autonomia. É a aprendizagem do 'eu/tu' que Martin Buber tão eloquentemente descreveu e onde alicerçou as condições indispensáveis para a alteridade efectiva. Quanto maior e mais alargado for o número de pessoas com quem estabelecemos a relação 'tu/eu', maior é a nossa participação na noosfera e mais forte é a nossa dignidade humana.
Foi esta noção de uma camada de humanos que envolve toda a Terra que Teilhard de Chardin chamou a noosfera. Ela é interdependente da biosfera e da atmosfera. A evidência desta afirmação encontra-se no nosso quotidiano (vivemos das espécies biológicas e respiramos porque imersos na atmosfera). Mas também a encontramos em certas manifestações religiosas que têm marcado profundamente algumas civilizações. Assim, por exemplo, no Budismo não há separação entre o humano e toda a realidade natural que o rodeia. No nosso tempo, esta interdependência é sentida através da acção nefasta do humano sobre a biosfera e sobre a atmosfera. Daí poder inferir-se que a contribuição para a integridade e diversidade das espécies biológicas e para o equilíbrio da atmosfera é, afinal, também contribuir para a defesa da dignidade humana."

Prof. Doutora Teresa Joaquim, in Documento de trabalho: 26/CNECV/99;
REFLEXÃO ÉTICA SOBRE A DIGNIDADE HUMANA

Príncipio da Autonomia


"Não te dei, ó Adão, nem rosto, nem um lugar que te seja próprio,
nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus
dons, os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo a possui-los.
Encerra a natureza outras espécies em leis por mim estabelecidas.
Mas tu, que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio,
em cujas mãos te coloquei, te defines a ti próprio. Coloquei-te no
centro do mundo, para que melhor possas contemplar o que o mundo
contém. Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem
imortal, para que tu, livremente, tal como um bom pintor ou um hábil
escultor, dês acabamento à forma que te é própria".

Pico de la Mirandola

Quarta-feira, Outubro 19, 2005

Linguagem

A reflexão sobre a linguagem é antiga, mas as definições clássicas da linguagem eram muito gerais (faculdade de expressão verbal do pensamento, etc), confundindo-se língua com linguagem. É com o Cours de linguistique générale (1916) de Saussure, fundador da linguistica, que se define a linguagem na sua especificidade, como faculdade de constituir um língua. Desde então, linguagem e língua estão dissociadas e esta ruptura marcou todo o pensamento contemporâneo. Linguagem era sinónimo de língua antes de Saussure, depois deste, toma outra acepção. É a faculdade de comunicar o pensamento por um sistema de signos (ex: Gestual, que não é universal, cada língua tem as suas convenções próprias, gestos próprios), e em particular por meio da língua (conjunto de convenções adoptadas pelo corpo social) associada à palavra (meio verbal individual de expressão). Faculdade de constituir uma língua.

"O que é a língua? Para nós, não se confunde com linguagem, porque é somente uma parte determinada dela, embora essencial. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adoptadas pelo corpo social para permitir o exercício desta faculdade entre os indivíduos."
(Saussure, Cours de linguistique générale, p.25, Payot)

A semiologia

Vem do grego sèmeion - «sinal» e logos - «estudo», «ciência» ou «razão». É a chamada ciência dos sinais que estuda a organização dos sistemas significantes.
O projecto de uma semiologia geral foi fundado pelo linguista Ferdinand de Saussure. Diz-nos ele que se a língua é um sistema organizado de signos arbitrários, dos quais podemos estudar as relações (e não apenas a sua evolução), é, então possível estudar da mesma maneira todos os sistemas de sinais que regem a vida social (gestos, roupas, regras de boa educação, etc.). Nesta perspectiva, a linguistica, na medida em que tem por objecto a estrutura da língua, é apenas uma parte da semiologia, mesmo se essa parte seja exemplar e sirva de modelo.

As tautologias

Como a inferência é sempre verdadeira, quaisquer que sejam os valores de verdade atribuídos às proposições, chamar-se-á tautologia. Seja por exemplo o seguinte raciocínio: «Se o Pedro ama a Maria; o Paulo é solteiro; ora Paulo não é solteiro; então o Pedro não ama a Maria»: que, no mundo real, Pedro ame ou não a Maria, que Paulo seja ou não solteiro, o cálculo será sempre válido. Será o mesmo, independentemente do sentido dado a «Pedro», «Maria», «ama», «solteiro», etc.
Vazias de qualquer conteúdo, as tautologias não são de todo desprovidas de utilidade. Constituem pelo contrário as leis lógicas na base das quais operam as regras do cálculo. Mais geralmente, formulam os princípios lógicos que permitem raciocinar correctamente e justificar a correcção dos nossos raciocínios.

A lógica como cálculo

Como toda a escrita simbólica, a lógica serve para calcular e/ou manipular os símbolos, de forma a chegar, através de procedimentos mecânicos, a um resultado indiscutível.
Leibniz foi o primeiro, no século XVIII, a querer estender a ideia de cálculo a um domínio mais lato do que o dos números e das quantidades, e a projectar construir uma «álgebra do pensamento». Da mesma forma que na aritmética, por exemplo, a «sintaxe» - ou seja, as regras de utilização dos sinais =, +, -, x, : - permite calcular de uma forma precisa os números, - é possível definir um conjunto de proposições relacionadas de maneira regrada, graças a conectores lógicos: ~ (negação), & (deveria ser um v ao contrário, mas não o descubro. leia-se "e"), v (ou), => (implicação - se... então...), <=> (consequência), etc. O emprego destes conectores permite-nos transformar as proposições e operar sobre elas como se fossem fórmulas.

Língua natural e língua simbólica

Embora o silogismo seja formal (podemos substituir os termos por variáveis), Aristóteles concebia-o como um instrumento da ciência (as obras lógicas de Aristóteles são conhecidas por nós sob o nome de Organon, que significa «instrumento»). Era então, para ele, inquestionável construir silogismos válidos a partir de proposições falsas «materialmente», ou mesmo a partir de simples «formas proposicionais». A lógica moderna libertar-se-á definitivamente deste ponto de vista «realista».

A proposição e o silogismo

Contrariamente a uma ideia corrente, a lógica não saiu acabada da obra de Aristóteles. Mas a sua contribuição foi fundamental. Consistiu na teoria da proposição e do silogismo.
Um raciocínio encadeia as prposições. Uma proposição é aquilo que é enunciado numa frase declarativa (afirmativa ou negativa), ou seja, susceptível de ser verdadeira ou falsa (nem todas as frases são declarativas: uma oração, uma ordem, um encorajamento, por exemplo, não são proposições). A forma mais simples (mas não a única) da proposição parece ser a forma predicativa: aquela em que atribuímos uma propriedade P (predicado) a um sujeito S através de um verbo (ligação): S é P.
O silogismo é um raciocínio que, a partir de proposições dadas (as premissas), estabelece uma conclusão necessária, recorrendo apenas aos dados de partida.

A lógica, ciência formal

A lógica é formal: trata da forma dos raciocínios, independentemente do seu conteúdo ou dos objectos aos quais se referem. É então necessário distinguir a validade formal de um raciocínio da verdade «material» das proposições que o constituem.
Seja, por exemplo, o seguinte raciocínio: «Todos os tubarões são pássaros; o meu peixe vermelho é um tubarão; então o meu peixe vermelho é um pássaro». Nenhuma destas três proposições é verdadeira «materialmente», ou seja, está em conformidade com a realidade; mas o encadeamento que as une umas ás outras é, na forma, válido: a terceira proposição é a consequência necessária das duas primeiras. Inversamente, um raciocínio como: «Todos os bretões são europeus; todos os franceses são europeus; todos os bretões são franceses» é constituído por três proposições, cada uma delas verdadeira «materialmente», mas que são ligadas por uma inferência não válida (de os franceses e os bretões são europeus, não se pode concluir que os bretões são franceses).
Para melhor salientar o aspecto formal dos raciocínios, é preferível enunciá-los sob uma forma hipotética («Se todos os tubarões são pássaros...»): isto significa claramente que não nos pronunciamos sobre a verdade de cada proposição, mas unicamente sobre a validade da conclusão.
Um outro meio, ainda mais claro, é o de substituir os termos das proposições («pássaros», «tubarões», «franceses», etc.) pelas variáveis, ou seja, por letras simbólicas (a, b, c...) que podem receber qualquer significado. Falaremos, então, menos de «proposição» do que de «forma proposicional». As variáveis designam os espaços vazios que podem ser preenchidos por um qualquer conteúdo. Teremos então descoberto "um modelo de raciocínio, que dará origem a um raciocínio logo que se considere uma matéria. Mas qualquer que seja a matéria o raciocínio será bom, porque a sua validade depende apenas do modelo que se mantém invariante" (R. Blanché, Introduction à logique contemporaine).
A lógica parece então oferecer a possibilidade de construção dos encadeamentos válidos não apenas com proposições falsas, mas mesmo com frases que não querem dizer nada.

A lógica

A lógica é a ciência das inferências válidas.
Inferência do latim inferre «levar para» - é uma operação do espírito pela qual se conclui através duma ideia para outra. A inferência é dedutiva, ou demonstrativa, quando a conclusão é logicamente necessária (como num silogismo, por ex.). É indutiva, ou não demonstrativa, quando a conclusão não é mais do que provável ou verosimilhante (ex: Infiro a existência dum cão se ouço ladrar).
Uma inferência é válida quando está em conformidade com os procedimentos que governam o pensamento correcto. O objecto da lógica é então de destrinçar as leis que autorizam estes procedimentos, de os explicar e de os formular.
Aristóteles foi o primeiro a tentar uma tal explicitação. Isto não significa que antes dele, não se raciocinasse logicamente, pode-se raciocinar logicamente sem se fazer lógica, da mesma forma que se pode falar correctamente sem se ter um conhecimento teórico das regras da gramática.
A lógica permite, no entanto, evitar (ou recusar) os paralogismos, ou seja, os raciocínios que consideram apenas a aparência de correcção. Neste sentido, a lógica é uma disciplina normativa: indica quais são as regras que devemos seguir se quisermos raciocinar «bem».

Terça-feira, Outubro 18, 2005

Falácias Indutivas

Generalização precipitada:
A amostra resultante por esta generalização è demasiado limitada e usada com o intuito de se obter conclusões tendenciosas.
ex1: A pessoa x de cor negra foi apanhada a roubar
ex2: Um ucraniano foi apanhado embriagado a conduzir e tentou sobornar um GNR, portanto todos todos os ucranianos além de bêbados tentam subornar GNR's.
ex3: O Gil e o Jaime que são bons alunos tiveram negativa a lógica por isso todos os outros também terão.

Amostra limitada:
Limita-se a amostra face à população fazendo crer que ela é representativa.
ex: A fruta do cimo desta caixa está em boas condições por isso todas as outras frutas também devem estar.

Falsa analogia:
Resulta do abuso de semelhanças existentes entre 2 ou mais objectos, extrapolando-as a todas as suas propriedades, de modo a que as próprias semelhanças percam a sua eficácia resultante da substimação das diferenças.
ex: Os empregados são como os pregos; temos que martelar na cabeça dos pregos para que estes desempenhem a sua função, logo, temos que martelar na cabeça dos empregados!

Indução preguiçosa:
A conclusão apropriada dum argumento indutivo é negada, apesar dos factos.
ex1: A pessoa X foi enganada "n" vezes pelo seu namorado, mas apesar disso recusa-se a admitir que aquele lhe é infiel.
ex2: A pessoa X teve 10 acidentes nos últimos meses. Todavia, rejeita que tenha qualquer culpa e atribui a culpa aos outros.

Omissão de provas ou exclusão:
Excluem-se dados importantes que se conhecidos destruiriam o argumento indutivo, baseiam-se em probabilidades e não em certezas.
ex: A equipa X ganhou 9 dos 10 jogos realizados portanto é provável que ganhem o próximo jogo.

Processos e métodos do raciocínio lógico

A dedução é um processo mental que vai do geral para o mais particular, a matemática e a lógica utilizam geralmente teoremas, postulados, definições, axiomas, princípios, regras, teorias e leis.
O método indutivo, ao contrário do dedutivo, parte do particular para o geral.
Como métodos científicos e humanos que são, são também falíveis. Assim, tendo em conta que a realidade (natureza, cultura e razão) e a ciência são mutáveis, que estão em constante devir, estes métodos merecem a nossa credibilidade e atenção, mas sempre em aberto e nunca de uma forma estática.
Não se pode dizer que o raciocínio dedutivo seja melhor que o indutivo ou do que o abdutivo/metalógico/analógico, pois todos são considerados por diversas ciências em toda a sua importância. Todos são usados por nós, e valem o que valem, como entendimento no discurso escrito ou falado. Registe-se que a dedução é usada como método das ciências exactas, a indução pelas ciências naturais e a abdução (analogia) pela literatura, poesia e ficção.
O que aqui se pretende é apontar exemplos de algumas falácias (raciocínios ilegítimos), tipícas do raciocínio humano, que se deixa por muitas vezes enevoar na ausência de ginástica mental.
Apesar de haver quem defenda que existem várias lógicas de agir (e por falar nisso, esta é uma falácia - que me perdoem, pois não me ocorre o nome dos referidos), estas falácias são próprias do raciocínio e não estão sujeitas ao relativismo cultural, já que se provam facilmente pela veracidade quer das premissas silogísticas, quer através da lógica binária nas suas tabelas de verdade.

Falácias Dedutivas III

Fuga ao assunto ou fora de alvo:
Ataques pessoais ou «Argumentum ad Hominem»
Ataca-se a pessoa que apresentou certo argumento e não o argumento que esta apresentou. Esta falácia assume várias formas podendo atacar por exemplo: o carácter, a nacionalidade, a étnia, a religião, entre outros.
As principais formas variantes desta falácia são 3:
1) o ataque abusivo, ataque à pessoa
2) o ataque circunstancial, ataque às circunstâncias
3) ataque «tu quoque» que é um ataque à pessoa, mas notando a incongruência daquilo que diz.
ex1: Podes dizer que Deus não existe porque apenas segues o ateísmo.
ex2:É natural que um ministro afirme que a política fiscal é boa porque nunca será atingido por ela.
ex3: Ele critica que eu bebo, mas ele não está sóbrio há mais de um ano.

Apelo à autoridade:
«Argumentum ad verecundiam»
Ainda que às vezes seja apropriado citar uma autoridade, todavia, na maior parte dos casos não é correcto. Mesmo que essas pessoas sejam uma autoridade no assunto ou área, não quer dizer que o sejam em todo o resto.
O apelo à autoridade é especialmente impróprio se:
1) a pessoa não estiver qualificada no assunto
2) não haver acordo entre peritos naquela área
3) a autoridade não pode ser invocada se estava a brincar ou ébria
Uma variante desta falácia é "ouvi dizer" ou "diz-se que". Está associada a 2 outras, a «ad antiquitatem» (antiguidade) e à «ad novitatem» (novidade).
ex1: O geocentrismo e o geoestacionarismo só podem estar correctos porque tanto Aristóteles como Ptolomeu os defenderam.
ex2: É impossível que o sol não gire e que a terra não esteja parada porque os sentidos assim o demostram.
ex3: Todas as verdades de fé reveladas na Biblia são verdadeiras porque são de inspiração divina.

Autoridade anónima ou apelo ao rumor:
É uma forma de apelo à autoridade, contudo a autoridade é anónima, sendo impossível confirmar se se trata dum perito ou não. Aliado a esta falácia está o apelo ao rumor. Como se trata duma fonte dúbia, duvidosa, é impossível saber se o mesmo é credível ou não. Muitas vezes os rumores não passam de falsos, de calúnias, de injúrias difamatórias, lançados com a intenção de desacreditar o oponente.
ex: Um membro do governo disse hoje que uma nova lei sobre posse e uso de armas será aprovada amanhã.
- "diz-se" e "sabe-se" também são de uso costume.

Estilo sem substância:
Em vez de ser o conteúdo e a matéria de um argumento a legitimar as suas ideias, pretende-se pelo contrário, que seja o modo do argumento ou o argumentador que o apresenta a legitimá-lo. Ou seja, a sua forma e estilo é que deverão contribuir para a verdade da conclusão.
ex1: A personalidade X perdeu o emprego porque estava a transpirar na entrevista
ex2: Aquela pessoa deve ser boa e inteligente pois cativa pela beleza e elegância

Falácias Dedutivas II

Apelo a motivos em vez de razões:

«Argumentum ad Misericordium» Apelo à piedade ou suplica especial
Pede-se a aprovação do auditório na base do estado lastimoso do autor, exortando-se à piedade e à compaixão para aceitarem a sua conclusão.
ex: Espero que aceite as nossas argumentações pois passei os últimos 3 meses a trabalhar arduamente nesse relatório.

«Argumentum ad Consequentiam»
É uma variável do argumento anterior (ad vaculum) que consiste no argumentador, que para mostrar que uma crença é falsa, aponta consequências desagradáveis para quem a defender.
ex: Deves acreditar em Deus porque de outro modo a vida não teria sentido.

Apelo a preconceitos:

Determinados termos, carregados e emotivos, são utilizados para ligar valores morais à crença na verdade duma proposição.
ex: As pessoas razoáveis concordarão com a nossa política fiscal.

Apelo ao povo ou à sua emoção:

«Argumentum ad populum»
Sustenta-se que uma proposição é verdadeira por ser aceite por grande parte da população. Também se denomina de emotivo porque se apela à quantidade em vez da veracidade do argumento.
ex: Como é do conhecimento geral... então também deves...
Se 10 milhões da população de Portugal acredita em... como pode você não acreditar?

Falácias Dedutivas I

Falácias de dispersão ou manobras de diversão:
É dado um limitado número de opções, geralmente duras, quando na realidade existem muitas mais. O falso dilema é o uso ilegítimo do operador «ou».
ex: Uma pessoa ou é boa ou é má.

Apelo à ignorância:
Os argumentos deste tipo concluem que algo é verdadeiro por não se ter provado que é falso, ou conclui que algo é falso porque não se provou que é verdadeiro, quando na realidade a falta de provas não é sustentável - não sendo em si mesma uma prova.
ex: Os fantasmas existem! Já provaste que não existem?

Derrapagem ou bola de neve:
Para mostrar que uma proposição é inaceitável, extraem-se consequências inaceitáveis da mesma - consequências das consequências. Ora, o argumento torna-se falacioso quando pelo menos 1 dos seus passos é falso ou duvidoso, mas a falsidade de uma ou mais premissas é ocultada pelos vários passos que constituem todo o argumento.
ex: Se aprovarmos leis contra as armas automáticas, não demorará muito até aprovarmos leis contra todos os nossos direitos. Acabaremos por viver num Estado totalitário. Portanto, não deveremos banir as armas automáticas.

Quinta-feira, Outubro 06, 2005

Sobre a Política

"O nosso engenho todo se esforça em pôr as coisas numa perspectiva tal, que vistas de um certo modo, fiquem a parecer o que nós queremos que elas sejam, e não o que elas são."

Matias Aires, Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna

Sexta-feira, Setembro 16, 2005

Pensamento do Dia

"Não se pode ajudar continuamente as pessoas fazendo o que elas deviam fazer por si próprias.”
Abraham Lincoln

«O Argumento da Aposta» de Pascal

"Todos os argumentos a favor e contra a existência de Deus que examinámos até agora pretendem demonstrar que Deus existe ou que Deus não existe. Todos eles pretendem dar-nos conhecimento da sua existência ou não existência. O argumento do apostador, derivado da obra do filósofo e matemático Blaise Pascal (1623-1662), habitualmente conhecido como aposta de Pascal, é muito diferente dos outros. O seu objectivo não é proporcionar uma demonstração, mas antes mostrar que um apostador sensato deveria «apostar» na existência de Deus.
O argumento parte da posição de um agnóstico, isto é, alguém que acredita que não existem dados suficientes para decidir se Deus existe ou não. Um agnóstico acredita que é genuinamente possível que Deus exista, mas que não há dados suficientes para decidir a questão com toda a certeza. Um ateu, pelo contrário, acredita geralmente que existem dados conclusivos a favor da inexistência de Deus.
O argumento do jogador é o seguinte. Uma vez que não sabemos se Deus existe ou não, estamos numa posição muito semelhante à de um apostador antes de uma corrida de cavalos se ter realizado ou antes de uma carta ter sido voltada. Precisamos por isso de calcular as hipóteses que temos. Mas ao agnóstico pode parecer que tanto a existência como a inexistência de Deus são igualmente prováveis. A atitude do agnóstico consiste em ficar indeciso, sem tomar nenhuma decisão em nenhuma das direcções. O argumento do apostador, contudo, afirma que a coisa mais racional a fazer é procurar que a hipótese de ganhar seja tão grande quanto possível, ao mesmo tempo que a possibilidade de perder seja tão pequena quanto possível: por outras palavras, devemos maximizar os ganhos possíveis e minimizar as perdas possíveis. De acordo com o argumento do apostador, a melhor forma de alcançar este objectivo é acreditar em Deus.
Há quatro resultados possíveis. Se apostarmos na existência de Deus e ganharmos (i. e., se Deus existir), ganhamos a vida eterna — um excelente prémio. O que perdemos se apostarmos nesta opção e verificarmos que Deus não existe não é muito, se compararmos com a possibilidade da vida eterna: podemos perder alguns prazeres mundanos, perder muitas horas a rezar e viver as nossas vidas debaixo de uma ilusão. Contudo, se escolhermos apostar na opção da inexistência de Deus e ganharmos (i. e., se Deus não existir), viveremos uma vida sem ilusão (pelo menos neste aspecto) e teremos a liberdade de gozar os prazeres desta vida sem medo do castigo divino. Mas, se apostarmos nesta opção e perdermos (i. e., se Deus existir), perdemos pelo menos a possibilidade da vida eterna e podemos mesmo correr o risco da condenação eterna.
Pascal defendeu que, enquanto apostadores perante estas opções, o curso de acção mais racional será acreditar que Deus existe. Assim, se tivermos razão, estaremos em posição de obter a vida eterna. Se apostarmos na existência de Deus e não tivermos razão, não estaremos em posição de perder tanto quanto estaríamos se escolhêssemos acreditar na inexistência de Deus e não tivéssemos razão. Logo, se queremos maximizar os nossos ganhos possíveis e minimizar as nossas perdas possíveis, devemos acreditar na existência de Deus."
*Ver também as críticas aos argumentos.

Segunda-feira, Agosto 15, 2005

Boas férias!

Segunda-feira, Julho 18, 2005

Opinione

A partir de uma conversa, ressalta a palavra opinião.
Do Latim opinione, significa maneira, modo pessoal de ver; aquilo que se pensa sobre determinado assunto; juízo, parecer, voto.
Aplica-se a crença, credo político ou religioso e liga-se a convicção.
Pode ser «opinião pública» - aquilo que se pensa comummente num determinado grupo social; pensamento comum a todos - e pode «fazer-se opinião», isto é, obter a adesão dos outros à sua opinião, pela validade que lhe é reconhecida.

A certa altura da conversa, alguém disse: “opiniões e gostos não se discutem” e isto é falso.
A citação antiga era "de gustibus et coloribus non disputandum", antepassada do nosso provérbio “Gostos não se discutem”. Pois o «não se discute» é mesmo só aplicável aos gostos e às cores.

Opiniões não são como os gostos, discutem-se.
Se não se discutissem, seriam dogmas em vez de opiniões.
Um dos elementos que podem ser decisivos é colocar as coisas sobre a mesa, assumir que temos de discutir o que fazemos, na esfera profissional e nas outras esferas também.
E discutir não é zangarmo-nos pelas diferenças de opinião.
É muito mais no sentido de procurar as raízes das coisas, do debate de razões ou dos fundamentos das práticas – porque ter uma opinião não pode ser couraçar-se, fechar-se numa redoma mas antes confrontar-se com provas, factos e evidências.

E julgo que as opiniões não valem todas o mesmo, não são todas igualmente respeitáveis.
Como afirmou Savater, todas as pessoas são respeitáveis; algumas opiniões não são.
Pensar que a opinião de todos vale o mesmo é uma falácia, uma pretensa liberalidade.
As ideias não valem a não ser que quem as sustente possa aduzir provas, dados, raciocínios.
Quando se afirma opinião, tem de se ser capaz de fundar e justificar essa opinião de forma consistente.
Ou não?!

Como sei que a maioria passa e não espia por vezes os links, senti-me no dever de transcrever no seu todo (mais uma vez), um pouco da clareza e lucidez da LN.
Para reflectir e... leiam Savater!

Segunda-feira, Julho 04, 2005

A Moda nas Democracias

(...) a forma moda que analisamos não é antitética do «racional», a sedução é já em si, em parte, uma lógica racional que integra o cálculo, a técnica, a informação, próprios ao mundo moderno; a moda acabada é o que celebra as núpcias da sedução e da razão produtiva, instrumental, operacional. De modo nenhum uma visão dialéctica da modernidade afirmando a realização progressiva do universal racional pelo jogo contrário das inclinações particulares, mas a potência da autonomia de uma sociedade ordenada pela moda, aí onde a racionalidade funciona com a efemeridade e a frivolidade, onde a objectividade se institui em espectáculo, onde a dominação técnica se reconcilia com o lúdico e a dominação política com a sedução. Depois, não aderimos sem reservas à ideia do progresso das consciências; na realidade, as Luzes avançam, indissociavelmente misturadas as seu contrário, o optimismo histórico implicado pela análise da moda deve ser acantonado em estreitos limites. Com efeito, os espíritos no seu conjunto são mais informados mas mais desestruturados, mais adultos mas mais instáveis, menos «ideologizados» mas mais tributários das modas, mais abertos mas mais influenciáveis, menos extremistas mas mais dispersos, mais realistas mas mais imprecisos, mais críticos mas mais superficiais, mais cépticos mas menos meditativos. O acréscimo de independência nos pensamentos caminha a par de mais frivolidade, a tolerância é acompanhada de mais indiferença e de relaxação na coisa pensante, a Moda não encontra modelo adequado nem nas teorias da alienação nem nas de uma «mão invisível» optimal, não institui nem o reino da despossessão subjectiva final nem o da razão clara e firme. (...)
A Moda produz inseparavelmente o melhor e o pior, a informação vinte e quatro por vinte e quatro horas e o grau zero do pensamento, e cabe a nós combater, pelo nosso lado, os mitos e os apriori, limitar os malefícios da desinformação, instituir condições para um debate público mais aberto, mais livre, mais objectivo. Dizer que o universo da sedução contribui para a dinâmica da razão não condena ao passadismo, ao «tudo vai dar ao mesmo», à apologia beata do show business generalizado. (...)
Em todo o caso, e ao contrário dos estereótipos com que a enfeitam, é a idade da moda que mais tem contribuído para arrancar o conjunto dos homens ao obscurantismo e ao fanatismo, para instituir um espaço público aberto, para moldar uma humanidade mais legalista, mais madura, mais céptica. A moda acabada vive de paradoxos: a sua inconsciência favorece a consciência, as suas loucuras, o espírito de tolerância, o seu mimetismo, o individualismo, a sua frivolidade, o respeito pelos direitos do homem. No filme de alta tensão da história moderna, começa~se a perceber que a Moda é o pior dos argumentos à excepção de todos os outros.

Gilles Lipovetsky, O Império do Efémero - A Moda e o seu destino nas sociedades modernas.

Quinta-feira, Junho 09, 2005

!

"It requires a very unusual mind to undertake the analysis of the obvious."

Whitehead

Quarta-feira, Junho 08, 2005

Agustina Bessa-Luís

Entrevista a uma das minhas eleitas portuguesas. É de há uns anos, de 1996, e feita por Pedro Mexia. Deixo-vos o link se quiserem lê-la já que esta senhora é intemporal.
Para ler e pensar.

Quinta-feira, Junho 02, 2005

Hannah Arendt

Para quem já se familiarizou com esta filósofa (como é o caso do Vasco, que eu bem sei! :) ), aconselho uma passadinha pelo Conversamos, onde vos esperam outras boas sugestões de leitura - Tempos Sombrios - que eu não conhecia, mas que vai já para o caderninho de futuras compras. Obrigado LN.
Abraços a todos.

Terça-feira, Maio 31, 2005

Paul Ricoeur (1913-2005)

Paul Ricoeur é um dos mais importantes filósofos da segunda metade do século XX. Foi professor na Universidade de Estrasburgo, Sorbone, Nanterre, Lovaina e na Universidade de Chicago. Estabeleceu uma ligação entre a fenomenologia e a análise contemporânea da linguagem através da teoria da metáfora, do mito e do modelo científico.

Obras do autor
Karl Jaspers e a Filosofia da Existência
, em colab. com M.Dufrenne (1947);
A Filosofia da Vontade I.
O Voluntário e o Involuntário (1950);
História e Verdade (1955);
Husserl: uma análise da sua fenomenologia (1967);
Filosofia da Vontade II.
Finitude e Culpabilidade: 1. O homem falível. 2. A simbólica do Mal (1969);
Da Interpretação.
Ensaio sobre Freud (1965);
Ensaios Políticos e Sociais (1974);
O conflito das Interpretações: Ensaios de Hermenêutica (1969);
Metáfora Viva (1975);
Teoria da Interpretação: O Discurso e o Excesso de Sentido (1976);
Leituras I
À volta da Política. (1991).
Do Texto à Acção, Porto, Rés-Editora, 1991
Da Metafísica à Moral, Lisboa, Instituto Piaget, 1997
O Discurso da Acção, Lisboa, Edições 70, 1988
Teoria da Interpretação, Lisboa, Edições 70, 1987
O Justo ou a Essência da Justiça, Lisboa, Instituto Piaget, 1997
Ideologia e Utopia, Lisboa, Edições 70, 1991
A Crítica e a Convicção, Lisboa, Edições 70, 1997
Sujeito e Ética, Braga, APPACDM, 1996
Outramente, São Paulo, Vozes.

Obras sobre o autor
Azevedo e Castro, Gabriela Maria - Imaginação em Paul Ricoeur, Lisboa, Instituto Piaget, 2003
Abel, Glivier, Paul Ricoeur - As Fronteiras da Filosofia, Lisboa, Instituto Piaget, 1988
Costa, Miguel Dias da, Sobre a Teoria da Interpretação de Paul Ricoeur, Porto, Contraponto, 1995
Heleno, José Manuel, Hermenêutica e Ontologia em Paul Ricoeur, Lisboa, Instituto Piaget, 2001
Gomes, Isabel, Dossier Sobre Paul Ricoeur-Dossier de Filosofia, Porto, Porto Editora, 1999
Hahn, Lewis Edwin, A Filosofia de Paul Ricoeur, Lisboa, Instituto Piaget, 2000
Silva, Carrera F., Hermenêutica do Conflito de Paul Ricoeur, Lisboa, Edições Minerva, 1992
Vários, Paul Ricoeur, Braga, FFB., 1990

Paul Ricoeur (1913-2005)

Um dos maiores filósofos europeus do século XX acaba de morrer (20 de Maio de 2005) na sua casa de Chatenay-Malabry. O que nos deixa é uma obra muito rica e densa, e uma atenção singularíssima à modernidade, que permitirá, depois da sua morte, manter actual, por muitos anos, a perenidade da sua obra – porque foi um interrogador do tempo presente, com instrumentos intelectuais cujas potencialidades estão longe de se esgotar.
Metáfora viva” e “Paradoxo político” são referências quer no campo filosófico, em especial no pensamento hermenêutico, quer no campo do pensamento político, no auge da contradição histórica entre as aspirações sociais dos anos cinquenta e a exigência das liberdades individuais que o colectivismo recusava. Husserl e Karl Jaspers influenciaram decisivamente o seu pensamento e o seu método. A coerência entre as ideias e o compromisso, na linha de Mounier e de Landsberg, aprofundou-se a partir da experiência da prisão durante a guerra e das responsabilidades sentidas no pós-guerra.
Gabriel Marcel foi um interlocutor essencial para Ricoeur, pondo em diálogo a existência e a acção, o percurso individual da pessoa e o seu compromisso social… O tema da responsabilidade não pode ser alheio ao do conhecimento e da compreensão. Personalidades como o social-democrata André Philip influenciaram o percurso cívico. Merleau-Ponty, Emmanuel Lévinas, Gadamer, Dumézil, Eliade, Rawls, Walzer mobilizaram a sua atenção e a sua extraordinária capacidade para dialogar e aprofundar as reflexões sobre ideias.
Membro de uma Igreja reformada vai tornou-se uma figura essencial no diálogo ecuménico – respeitadíssimo pelas várias confissões religiosas pela seriedade da sua atitude intelectual. Desde 1956 viveu na comunidade fundada por Mounier, partilhando com Paulette Mounier, Jean-Marie Domenach, Henri Marrou, Paul Fraisse e tantos outros uma atitude centrada da dignidade da pessoa humana.
Encontramos em Ricoeur uma «ontologia do agir» que o leva a afirmar: «Sous la pression du négatif, des expériences en négatif, nous avons à reconquérir une notion de l’être qui soit acte plutôt que forme, affirmation vivante et puissante d’exister».
Era um sábio, com uma inteligência desperta para ouvir os outros e para descobrir novos caminhos. Eis porque deixou um vazio impossível de preencher.

Sábado, Maio 21, 2005

LEKTON

Lekton: Termo grego usado pelos estóicos que significa «conteúdo do enunciado»

Um novo blog de leitura particularmente dedicado aos autores clássicos.
Inicia actividade com "A República" de Platão.

«Porque as raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem não se esgotou e que permanecem fontes vivas do progresso humano».

Segunda-feira, Maio 16, 2005

Discussão

«A verdade é difícil de alcançar. Para tal requer-se engenho, ao criticar as antigas teorias e engenho na invenção imaginativa de novas teorias. Isto passa-se não só nas ciências, mas em todos os campos.
As discussões sérias e críticas são sempre difíceis. Nelas entram sempre elementos não racionais, tais como os problemas pessoais. Muitos participantes numa discussão racional, ou seja, crítica, consideram particularmente difícil terem de desaprender aquilo que os seus instintos lhes ditam (e aquilo que lhes é ensinado por todas a sociedades que debatem): ou seja, vencer. Pois o que tem de aprender é que uma vitória num debate não significa nada, ao passo que a mínima clarificação de um problema que se tenha – mesmo a mais pequena contribuição para uma compreensão mais clara da sua própria posição ou da de um opositor – constitui um grande sucesso. Uma discussão que se vence, mas que não ajuda na alteração ou clarificação da vossa mente, nem que seja só um pouco, deverá considerar-se como uma perda completa. Por isso, nenhuma mudança de posição se deve fazer sub-repticiamente, mas há que, pelo contrário, realçá-la juntamente com as suas consequências exploradas.
A discussão racional, neste sentido, é uma coisa rara. Mas é um ideal importante e podemos aprender a apreciá-la. Não tem por objectivo converter ninguém e é modesta nas expectativas: é suficiente, mais do que suficiente, se sentirmos que conseguimos ver as coisas sob uma nova luz ou que até nos aproximámos um pouco mais da verdade.»

Karl Popper, O Mito do Contexto, pp.67

Sábado, Maio 14, 2005

Modernidade, relativismo e ciência

Karl Popper demonstrou claramente haver aqui uma confusão entre os conceitos de “certeza” e de “verdade”, na medida em que se não há, de facto, “certezas absolutas”, pode e deve haver “verdades absolutas” desde que (e esta distinção é capital) essas verdades sejam perspectivadas num horizonte de incerteza. Se assim não fosse, quer dizer, se não se admitisse a existência de “verdades absolutas” (num horizonte de incerteza, repete-se) o espaço cognitivo seria preenchido por “verdades relativas” intermutáveis, justificando filosoficamente um mundo de “vale tudo”, sem critérios nem referências, universo nihilista sem outro princípio do que o “cada um por si”, onde todos os valores ficariam esvaziados de sentido.
Nessa senda de anomia total restaria apenas a lei dos mais fortes contra os mais fracos, a eclosão do reino da selvajaria e da injustiça, e o inevitável aparecimento de novas formas de escravatura. É num tal contexto que as “verdades absolutas”, desde que inseridas num “horizonte de incerteza”, são necessárias a uma coesão social que respeite a liberdade individual sem cair no cepticismo.*
*É igualmente por isso, que a Democracia não deve ser vista apenas – nem principalmente – como um conceito relativo consistindo numa mera “delegação de poderes do povo”, concepção variável e facilmente atraiçoada, mas como, o efectivo controlo do povo sobre o poder através de órgãos que minimizem a promiscuidade de poderes. Do mesmo modo que o princípio da “igualdade” herdado da Revolução Francesa, não corresponde à abstracção arbitrária de: “todos iguais”, mas sim – bem mais pragmaticamente – a uma igualdade de “oportunidades para todos”, o que é radicalmente diferente porque põe o acento tónico numa praxis política e económica precisa e não num conceito de escopo incognoscível e erradio.
Adelino Torres. O estudo todo aqui.

K. Popper

Porque que é que a simplicidade da linguagem é tão importante para os pensadores iluministas? Porque o verdadeiro pensador iluminista, o verdadeiro racionalista, nunca pretende convencer ninguém a fazer nada. Não, nem sequer deseja convencer ninguém: tem permanentemente consciência de que pode estar errado. Acima de tudo, valoriza demasiado a independência intelectual dos outros para querer convencê-los em questões importantes. Prefere provocar a contradição, preferivelmente sob a forma de crítica racional e disciplinada. Não procura convencer mas despertar – desafiar os outros a formarem opiniões livres.(...)Uma das razões por que o pensador iluminista não quer convencer ninguém de nada é o seguinte. Ele sabe que, fora do estreito campo da lógica, e talvez da matemática, nada pode ser provado.

Karl Popper, A Vida é Aprendizagem, Edições 70 (pág.118)

Sexta-feira, Maio 06, 2005

Sofistas

Com o Trívio (gramática, retórica e dialéctica), implementado pelos sofistas, há uma convergência ao uso da palavra, como a política era a mais importante função a desempenhar, tinha-se que trabalhar o dom da palavra.
O corpo era para os gregos também muito importante, dá-se muita importância á estética, pois o corpo pertence ao conjunto total do homem e como tal, era cultivada a ginástica em particular e os restantes desportos em geral.
Para os sofistas não há uma verdade única que a todos se imponha, a verdade é relativa. As coisas são pelo indíviduo e para o indíviduo. É por esta posição que os sofistas ganham má fama porque todos os filósofos da época procuravam a verdade e estes não a reconhecem como realidade em si, dizem apenas que a verdade é em função do sujeito.
Há nesta época uma crise de valores. O político não tem verdades, tem adequações e impera o consensualismo, ou seja, o que é melhor para a cidade (pólis) no momento.
Relativismo e consensualismo são normalmente os índicios de crise. Uma ética consensual é muito perigosa, pois torna-se difícil avaliar alguma posição através de maiorias, tal como é o exemplo do aborto no nosso tempo. Pensemos: Haverá consenso no referendo do aborto? Não, não enquanto a diferença fôr mínima, pois não pende decisão maior para nenhum dos lados.
O universalismo ético com todas as verdades absolutas, era, para os sofistas, impossível de ser vivido porque trazia fundamentalismos e impossibilidades de vivência. Surge assim, o racionalismo livre com os sofistas.

Primórdios da acção consciente

A descoberta da filosofia moral é já não uma moral vivida mas a sua descoberta, a moral refletida. A consciência da norma moral é reflectida tanto individualmente como socialmente. Começa-se a pensar sobre a legitimidade das normas e do reconhecimento da autoridade que as enuncia.
Anteriormente assentámos em momentos sucessivos para a formação da razão ética, agora assentamos na constituição de uma razão ética.
É com os sofistas que conhecemos pela primeira vez o relativismo moral, são eles que nos trazem o consensualismo ideal educativo, a formação espiritual consciente e com isso, o surgimento do racionalismo livre.
Os sofistas são um pouco mal vistos na história. Eram tidos por pessoas que queriam ensinar apenas a retórica sem se preocuparem com a verdade. Contudo, são os primeiros pedagogos, e foram eles que criaram as ciências da educação. Têm uma consciência clara que é possível determinar uma pessoa pela educação e são eles quem pensa num projecto educativo pela primeira vez (Trívio: gramática, retórica e dialéctica; Quadrívio: astronomia, geografia, música e matemática) o que antes não havia, e este mantém-se até ao fim da Idade Média.
Esta descoberta da filosofia moral envolve uma consciência da moral vivida, é já uma reflexão do vivido. Os modelos de moral estão implícitos nos textos mas ainda não abertamente ditos por absoluto. Explico: ainda que o produto da acção seja o mesmo, a natureza da acção é outra. Sendo reflectida, existe consciência da acção, apesar de não ser dito explícitamente, ou seja, o homem age racionalmente e é este modo de agir que legítima a acção.

"Qualquer projecto educativo é uma moral disfarçada"
Wunenburger [séc.XX].

Quarta-feira, Maio 04, 2005

Os 7 Sábios e o Orfismo

Em continuação do post abaixo, da Poesia e Tragédia, temos os 7 Sábios que são o ideal de sabedoria que se exprime em normas de bem viver. Recordo que estamos a falar do período pré-socrático, onde ainda não haviam, digamos assim, «instituídas» quaisquer disciplinas.
Os temas dos 7 sábios eram as normas políticas e morais. Estes sábios não são conhecidos com certezas, mas sabe-se que Tales e Solon são 2 deles.
Os sábios, possuidores de sabedoria, colocam-se numa dimensão teórico-práctica. Um conhecimento teórico só não terá grande utilidade se não aplicado à prática, e a sabedoria destes sábios é teórico-prática, como já se mencionou, ou seja, exprime-se em normas de bem viver, que, por sua vez, se exprimem quer a nível social quer individual. Há uma indissociabilidade entre normas políticas e morais. Não se pode separar uma da outra porque o indivíduo está na/ou pertence à sociedade. Não há para os gregos possibilidades do indivíduo viver fora da sua comunidade - da que nasceu e está inserido.
O Orfismo é uma corrente que alude à intensificação da espiritualidade e da interioridade. Os temas são a norma expressa e a obrigação de prestar contas da sua vida. Esta teoria do orfismo teve um grande impacto em Platão e caracteriza-se pela reencarnação da alma (teoria da reminescência). O corpo vive vidas, mas reencarnando em almas. A alma (psiké) é o que dá vida, é o que está no corpo.
Deus cria o homem assoprando-lhe nas narinas e assim o homem ganha vida, a alma é aqui princípio vital apenas (Génesis). Para os gregos, no orfismo, a alma não é apenas princípio vital, é também um processo que pode libertar a alma da rotatividade de incarnações - o caso do filósofo, que é aquele que possui a verdadeira sabedoria, que aplica o que sabe à vida. O filósofo é aquele que melhor conhece o Bem e é aquele que melhor o pratica. É o único que se pode libertar do ciclo sucessivo de reencarnação, que no fundo é a perfectibilidade da alma do homem. O homem vive muitas vidas pelas reencarnações para chegar à perfeição e se libertar da vida terrena. Uma alma que se esforça muito tem o «direito» de reencarnar num corpo melhor numa outra vida.

Portanto, como já se leu abaixo, a norma na poesia é exemplificada, nas tragédias é deliberada porque já é reflectida, nos 7 sábios é percebida na dimensão individual e social e no orfismo é francamente percebida na medida em que o homem, como também já se disse, «presta contas da sua vida».
Somos o resultado do nosso agir, o homem percebe isso, tem já consciência da sua perfectibilização e descobre a filosofia moral, depois do orfismo e antes de Aristóteles.

Sábado, Abril 30, 2005

A chain-letter culta

Corre a net à velocidade luz e mais cedo ou mais tarde apanha-nos na teia. Este veio da LN e o Miguel como também já mo tinha apresentado no defunto (quase a rejuvenescer) Escolaridades, deixo-lhes um beijinho. :)

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Depreendo pela pergunta que teria que ser obrigatoriamente um livro a ser queimado... hum... é maldade, não conseguiria queimar livros, mas hipoteticamente poderia ser a colecção completa das Sabrinas (eheh).

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por uma personagem de ficção?
Não. Entram-me facilmente como ar, mas nunca ao ponto de ficar apanhadinha. Pela ficção em si sim, pelo personagem não.

Qual foi o último livro que compraste?
"O Crepúsculo do Dever - A ética indolor dos novos tempos democráticos" de Gilles Lipovetsky e o "Mito do Contexto - Em defesa da ciência e da racionalidade" de Karl Popper.

Qual o último livro que leste?
"A Rebelião das Massas" de Ortega Y Gasset

Que livros estás a ler?
Tenho sempre alguns em mãos, apesar de gostar de ler um de cada vez. "Sete cartas a um jovem filósofo" de Agostinho da Silva; "O futuro está aberto" de K. Popper e Konrad Lorenz.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
"A Condição Humana" de Hannah Arendt (incontornável, mantenho LN)
"O Existencialismo é um Humanismo" Sartre
"Ética a Nicómaco" Aristóteles
"CRP"; "CRPr"; "CFJ" de Kant (isto vai parecer muiiiiito estranho a vocês, mas numa ilha deserta...entendam!)
Levava tudo de Herman Hesse e de Goethe e... e... não sei fazer isto sem fazer batota!
Já agora, será que o MacGyver escreveu alguma coisa? Dava jeitinho na ilha. ;)

A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
Vou mandá-lo para o Vitor do Povo, para o Vasco do Santuário e para a Beatriz do Poesis.
Amanhem-se amigos!
Porquê? Não é por superstição, garanto-vos eu. Pela curiosidade.

Poesia e Tragédia

A literatura grega pré-clássica é a expressão do processo de auto-formação/perfectibilização do homem. Esse processo registado pela literatura, é a vivência da moralidade pela moral vivida, ou seja, as manifestações do homem, o que é diferente da moral convencionada, que a título de exemplo, refiro os Direitos Humanos.
Nesta fase da humanidade ainda não se falava de ética, de moral ou de direito. Considera-se este um pré-momento da norma, que apesar de ainda não racionalizada, já estava exemplificada na Poesia, deliberada nas Tragédias (porque já era reflectida), expressa e percebida pelos 7 Sábios na dimensão individual e social e no Orfismo é francamente percebida, na medida em que o homem presta já contas da sua vida.
A poesia retrata narrativas acerca da relação da vida dos deuses com os homens. São teogonias sobre a condição do homem e o seu destino. Os temas passam pela educação e a virtude, que é a excelência do homem (arete), e os exemplos são dados por heróis. A arete é vista como um atributo de formação física e dirigida aos atributos físicos do herói.
O homem grego não tem liberdade, torna-se quase impotente e condicionado perante a força do destino (moira) que acreditava já estar traçado.
As tragédias são normativas para a comunidade e funcionam como formação espiritual do homem. Há nas tragédias uma vivência, um drama existencial mais profundo, e aqui, o homem já ganha maior dimensão espiritual, está mais humanizado. Logo, a sua capacidade deliberativa aumenta conforme a trama que aumenta também nas tragédias. Os temas tratados são a vontade, o destino, a deliberação, a lei divina e a lei cósmica e os exemplos dados são também através dos heróis e heroínas.
Apesar das parecenças com a poesia, as manifestações da necessidade, quer da Natureza quer do destino são visíveis, mas já com menos peso, com manifestações mais ténues. A força do destino vai diminuindo porque a dimensão espiritual do homem aumenta, intensifica-se ao avançar do tempo. Aqui as qualidades exaltadas são claramente as psicológicas, a arete deixa de ser uma excelência física e passa a ser uma excelência espiritual. Começa-se a perceber uma procura por respostas, um descobrir da interioridade, e isso nota-se pelos heróis que começam já a revelar sentimentos e a exprimir a sua fraqueza, típica do homem.
Todas as tragédias exprimem uma normatividade, mas já para a comunidade e não como na poesia, que seria o exemplo para cada um. Todas são histórias acerca de deliberações.
Antígona é para Heidegger, a primeira obra ética, exprime o dilema entre a ética e o direito. A ética na pele de Antígona e o direito pela sua irmã Esmera. A acção de Antígona é determinada pela consciência e a acção de Esmera determinada de acordo com a lei política. Um dilema que representa a indecisão entre seguir aquilo que lhe dita a consciência ou obedecer às leis.

Sexta-feira, Abril 29, 2005

Antígona de Sófocles

Em Antígona, a tragédia, tem como heroína Antígona, filha de Édipo e Jocasta.
A intriga da história começa com uma alusão à guerra dos Sete contra Tebas, na qual os dois irmãos de Antígona, Etéocles e Polinices, se confrontam em lados opostos. Ambos morrem no campo de batalha mas, aos olhos de Creonte, tio daqueles, Polinices é considerado traidor de Tebas e, por isso, não lhe são concedidas honras fúnebres.
Antígona recusa-se a cumprir a ordem de Creonte e, considerando tratar-se de um dever sagrado dar sepultura aos mortos, infringe a ordem do soberano e realiza os rituais fúnebres a que o irmão tem direito. Devido a este acto de piedade, Antígona é condenada à morte pelo rei de Tebas e encarcerada viva no túmulo dos Labdácidas, de quem descende. A acção impiedosa do rei será punida no final da tragédia: ao tomar conhecimento da morte de Antígona, Hémon, filho de Creonte e noivo de Antígona, suicida-se. Por consequência deste segundo suicídio, é a vez de Eurídice, mãe de Hémon, decidir "morar eternamente no Hades".
Antígona é caracterizada, essencialmente, pelo seu acto de desobediência, solitário e poderoso. É uma personagem que contém força e agressividade, sendo capaz de arriscar tudo em defesa dos seus princípios. Enquanto aos olhos de Creonte e de alguns conselheiros de Tebas, a filha de Édipo não passa de um ser movido pelo ódio e pela ambição, para outros ela é apenas uma jovem inocente, justa e acometida de piedade para com os mortos. Esta não é, pois, uma caracterização unânime.
Do ponto de vista familiar, a heroína é uma personagem que representa o lado frágil e sofredor da família contra aquele que detém o poder. Antígona é, assim, detentora de um sentido político uma vez que é colocada ao mesmo nível do seu adversário, Creonte, o rei.
A vida e a morte surgem como os valores mais importantes do ser humano, abordando concomitantemente outros temas como o amor fraternal e o respeito pelas leis humanas e naturais.
Já no seu tempo Sófocles havia criado os seus carácteres inspirado no ideal de conduta humana. Humanizou a tragédia e fez dela o modelo imortal da educação humana. Assim, Antígona eleva-se a uma grandeza humana pelo aniquilamento da sua própria felicidade terrena e da sua existência física e social. O drama de Sófocles gira em torno da imposição política que pesa sobre o espírito individual na interioridade silenciosa do ser. Este silêncio e também a solidão são as condições essenciais do teatro de Sófocles.

«Apenas o tempo revela o homem justo; basta um dia para pôr a nu um pérfido»
«Há algo de ameaçador num silêncio muito prolongado»

(Leiam se puderem que é pequenina, foi considerada a primeira tragédia sobre os dilemas éticos.)

Quinta-feira, Abril 28, 2005

Alegoria da Caverna

Platão relata no seu livro A Républica a bem conhecida Alegoria da Caverna. Nela, seres humanos são prisioneiros numa caverna escura onde estão agrilhoados, e apenas podem olhar em frente e ver o movimento de sombras projectadas na parede. A realidade de que se apercebem são apenas essas sombras, nada sabem de si e dos outros. Sucede então que um desses seres humanos escapa das amarras e sai da caverna. Mas regressa para contar aos outros que permaneceram prisioneiros o que é o mundo exterior, o Universo, a Vida. Só que os prisioneiros desprezam tais relatos, acusando o colega "livre" como sendo louco e mentiroso.
Como pode a realidade ser tão complexa quando o que a sua experiência mostra são somente as sombras que se movem e existem nas paredes da caverna?

Sto. Anselmo afirmou Credo ut intelligam que me atrevo a traduzir como Crer para Compreender. Acredito em modelos científicos que poderão dar a chave para formular as perguntas que definem estratégias onde encontrar as respostas e explicações sobre o Universo, mas também acredito que haja muito mais além disso.

Há o excerto da Alegoria da Caverna neste endereço, é pequenino e não maça nada.
Extraído da República, Livro VII, 514a-517c (Ed. Gulbenkian).

Quarta-feira, Abril 27, 2005

Psicologia Transpessoal

Obviamente existirá toda uma série de conceitos nos quais eu não vou entrar por falta de tempo e por abordar este tema de uma forma muito, muito sucinta e sem grandes pormenores. Poderei eventualmente aprofundar alguns aspectos quando for oportuno no futuro e sempre que os leitores demonstrarem interesse, limitando-me a transferir os poucos conhecimentos que vou amealhando, não sendo propriamente um “expert” mas apenas o amador (aquele que ama) que gosta de partilhar os seus valores.
Como todos sabem ou podem facilmente depreender, a psicologia mais de que qualquer outra ciência cruza diversos campos das ciências ditas experimentais ou com substratos físicos mais evidentes. Numa lógica humanista e contrária a uma ciência redutora que perspectivaria o estudo humano segundo leis mecanicistas surge ou vai surgindo uma necessidade de englobar o ser humano no seu todo, conferindo um outro sentido à sua necessidade de auto-conhecimento. É neste contexto que surge esta ciência emergente denominada psicologia transpessoal ou psicologia da consciência.
Para melhor compreensão destes conceitos convém debruçarmo-nos sobre dois aspectos fundamentais, o transpessoal e a consciência. O transpessoal muito sucintamente define o que vai para além do pessoal ou ego propriamente dito e definiria o “eu” como uma entidade talvez mais “alargada” do que o entendimento comum, onde o ego poderia funcionar como condensador de uma realidade maior. A consciência é o complexo de fenómenos psíquicos que se apresentam na unidade de tempo e que permitem o conhecimento do próprio eu e do mundo exterior. Pode ser ainda definida de um modo mais abrangente, como a “totalidade da experiência momentânea inserida na corrente contínua da vida psíquica”. É precisamente no cruzamento do transpessoal com a consciência que surgirá a realidade. Os conceitos de sincronicidade e de processo de individuação encorajam-nos a derrubar fronteiras entre subjectividade e objectividade, psique e matéria, causalidade e teleologia (finalidade do ser). Enquanto o físico trabalha com a matéria que se forma no cérebro, o psicólogo trabalha com realidades psíquicas que acredita condicionarem o conhecimento da realidade física. No fundo, ambos mergulham numa única realidade, visto que de ambas as partes existe um referencial de crenças do ponto de vista do self ou da supra-consciência : o Unus Mundum de Jung?
Na psicologia da consciência teríamos que falar de muita coisa: dos sonhos, da vigília, realidades intermutáveis, kundalini, transmigração da alma, estados modificados da consciência, tempo, identidade, ética, espiritualidade, evolução e expansão da consciência. O transpessoal é uma maturação do ser que depois de um percurso purificado faz evoluir o seu próximo, evoluindo com ele.
O campo mais explorado pelo psicólogo “pronto” e ciente da sua responsabilidade é a psicoterapia através da qual ele é testemunha da mudança do seu paciente, pois ele acompanha-o no seu caminho, facultando-lhe ferramentas para a sua evolução que lhe permitam a reestruturação vivencial. Tomando consciência no verdadeiro sentido da expressão ou seja, subindo graus na pirâmide do seu auto-conhecimento. Ele vivência toda a sua realidade, ele é o epicentro perfeito do universo, sintonia do homem com o cosmos, harmonia divina.
Não poderia acabar este humilde artigo sem fazer referência ao grande mestre Português em matéria de transpessoal, estou a falar do Dr. Mário Simões, psiquiatra, professor da Universidade Nova de Lisboa. O meu grande mestre Carl Gustav Jung, dissidente do Freud (com quem trabalhou num primeiro tempo) e grande teorizador do inconsciente colectivo, Ian Stevesson, psiquiatra americano, Pierre Weill, Seymour Boorstein entre outros psicoterapeutas e investigadores. Poderão também as pessoas interessadas visitar o site da ALUBRAT (associação Luso-Brasileira de Transpessoal). Espero ter desta forma dado o meu contributo para quem procura estar mais perto dos outros e do grande complexo do universo e quem sabe de dEUS.
Um óptimo teste para verificar se ficou alguma coisa de tudo que leram é responderem com honestidade a pergunta quem sou eu? Espero que a vossa resposta tenha sido diferente, antes de lerem esta crónica e agora. Será? Quem sou eu?

Segunda-feira, Abril 25, 2005

Democracia é...

... como um galinheiro onde todas as galinhas são livres e iguais assim como... as raposas.

Sábado, Abril 23, 2005

O que é a Filosofia?

A filosofia não cultiva dogmas, como a religião; a filosofia faz o contrário: procura destruir dogmas. Os cristãos, muçulmanos e hindus, partem do princípio de que existe Deus. A filosofia pergunta: mas que razões temos para pensar que existe Deus? E, admitindo que existe um deus sumamente bom e criador, omnisciente e omnipotente, como se explica a existência do mal? A filosofia faz as perguntas difíceis que muitas pessoas gostariam de calar, e que efectivamente têm muitas vezes conseguido calar ao longo da infeliz história humana. Podemos dizer, poeticamente, que a filosofia é um grito de liberdade contra a opressão do dogma. E nisto, uma vez mais, a filosofia é semelhante à ciência. O que distingue os problemas da filosofia dos problemas da ciência é o seu carácter conceptual, a sua generalidade e a inexistência de fronteiras precisas. Os problemas da matemática são também bastante gerais e em grande medida conceptuais - mas têm fronteiras muito precisas. Não se pode determinar matematicamente se os animais têm direitos; não se pode determinar matematicamente se Deus existe - e nem sequer se pode determinar matematicamente se os números existem independentemente de nós. Qualquer problema com suficiente generalidade, de carácter conceptual e para a solução do qual não exista qualquer ciência pode ser um problema filosófico. Os problemas da matemática têm fronteiras muito claras: têm de poder ser resolvidos pelos métodos formais da matemática. Em filosofia, pelo contrário, não há métodos formais para resolver problemas.
A filosofia é uma actividade crítica, que consiste na tentativa de compreensão sistemática dos nossos conceitos mais básicos. Conceitos como os seguintes: bem, arte, justiça, beleza, verdade, validade, igualdade, identidade, liberdade, existência, etc., etc. A filosofia não é a sua história. A filosofia interpela-nos a enfrentar os mesmos problemas que os grandes filósofos do passado enfrentaram; interpela-nos a pensar pela nossa própria cabeça. Um estudante sério de filosofia aprende a pensar pela sua própria cabeça, aprende a defender as suas opiniões com argumentos sólidos - não aprende a repetir de forma palavrosa o que disse Kant ou Hegel ou Aristóteles.
A atitude que reduz a filosofia a um jogo de palavras inconsequente, obscuro, palavroso e acrítico é uma traição ao projecto original da filosofia; é má filosofia. Acho que essa traição tem todo o direito de existir; mas acho que não tem o direito de procurar calar o projecto original da filosofia. Isso seria tão absurdo como ter os maus músicos a calar, nos conservatórios, os músicos de qualidade. Devemos ser tolerantes. Mas devemos dizer - cordialmente - que a pseudofilosofia não é a única alternativa que existe. Há outras formas de fazer filosofia; formas mais criativas, mais consequentes, mais claras e, sobretudo, mais críticas e menos palavrosas. A escolha deve ser livre e deve haver igualdade de oportunidades para todos.

Sexta-feira, Abril 22, 2005

As Bases da Sociedade

"Politicamente falando, não há mais do que um princípio - a soberania do homem sobre si mesmo. Essa soberania de mim e sobre mim chama-se Liberdade. Onde duas ou mais destas soberanias se associam principia o Estado. Nesta asssociação, porém, não se dá abdicação de qualidade nenhuma. Cada soberania concede certa quantidade de si mesma para formar o direito comum, quantidade que não é maior para uns do que para os outros. Esta identidade de concessão que cada um faz a todos chama-se Igualdade. O direito comum não é mais do que a protecção de todos dividida pelo direito de cada um. Esta protecção de todos sobre cada um chama-se Fraternidade. O ponto de intersecção de todas estas soberanias que se agregam chama-se Sociedade.
Ora, sendo essa intersecção uma junção, por consequência esse ponto é um nó. Daqui vem o que nós chamamos laço social. Dizem alguns «contrato social», o que vem a ser o mesmo, visto que a palavra contrato é etimologicamanete formada com a ideia de laço. Vejamos agora o que é a igualdade, pois se a liberdade é o cume, a igualdade é a base. A igualdade, cidadãos, não é o nivelamento de toda a vegetação; uma sociedade de grandes cânulas de erva e pequenos carvalhos; um tecido de invejas; é, civilmente, a admissão de todas as aptidões; politicamente, o mesmo peso para todos os votos."

Victor Hugo, in Os Miseráveis
Via O Ser e o Nada

Do Silêncio e da Treva

Labirinto

Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz dum dia limpo.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Quarta-feira, Abril 20, 2005

Certeza Interior

«Quem decide arrostar com o mar da vida tem de tornar-se um navegador; tem de aprender a defrontar-se com ventos e correntes, com leis e limites. Um Colombo não zomba das leis, alarga-as. Não se faz ao mar para alcançar um país imaginário. Descobre um mundo novo acidentalmente. E tais acidentes são os frutos legítimos do atrevimento; de um atrevimento que não é imprudência mas o produto de uma certeza interior.»

Henry Miller, O Tempo dos Assassinos
Ao Vitor, meu amigo.

Terça-feira, Abril 19, 2005

O Triunfo da Ignorância

As relações privadas entre os homens formam-se, parece, segundo o modelo do bottleneck industrial. Até na mais reduzida comunidade, o nível obedece ao do mais subalterno dos seus membros. Assim, quem na conversação fala de coisas fora do alcance de um só que seja comete uma falta de tacto. O diálogo limita-se, por motivos de humanidade, ao mais chão, ao mais monótono e banal, quando na presença de um só 'inumano'. Desde que o mundo emudeceu o homem, tem razão o incapaz de argumentar. Não necessita mais do que ser pertinaz no seu interesse e na sua condição para prevalecer. Basta que o outro, num vão esforço para estabelecer contacto, adopte um tom argumentativo ou panfletário para se transformar na parte mais débil.

Visto que o bottleneck não conhece nenhuma instância que vá além do factual, quando o pensamento e o discurso remetem forçosamente para semelhante instância, a inteligência torna-se ingenuidade, e isso até os imbecis entendem. A conjura pelo positivo actua como uma força gravitória, que tudo atrai para baixo. Mostra-se superior ao movimento que se lhe opõe, quando com ele já não entra em debate. O diferenciado que não quer passar inadvertido persiste numa atitude estrita de consideração para com todos os desconsiderados.
Estes já não precisam de sentir nenhuma intranquilidade da consciência. A debilidade espiritual, confirmada como princípio universal, surge como força de vida. O expediente formalisto-administrativo, a separação em compartimentos de tudo quanto pelo seu sentido é inseparável, a insistência fanática na opinião pessoal na ausência de qualquer fundamento, a prática, em suma, de reificar todo o traço da frustrada formação do eu, de se subtrair ao processo da experiência e de afirmar o 'sou assim' como algo definitivo, é suficiente para conquistar posições inexpugnáveis. Pode estar-se seguro do acordo dos outros, igualmente deformados, como da vantagem própria. Na cínica reivindicação do defeito pessoal pulsa a suspeita de que o espírito objectivo, no estádio actual, liquida o subjectivo. Estão down to earth, como os antepassados zoológicos, antes de se alçarem sobre as patas traseiras.

Theodore Adorno, in Minima Moralia
(Este post vai direitinho para aquele que eu e o E. Montenegro sabemos)

Espiritualismo

Do latim spiritualis ou spiritalis: «próprio à respiração», «espiritual».
Sentido comum é uma doutrina que consiste em afirmar que o espírito não se reduz à vida e/ou que a vida não se reduz à matéria (oposto ao materialismo). Na metafísica é uma teoria filosófica segundo a qual existem duas substâncias radicalmente distintas, o espírito e a natureza. A primeira é caracterizada pelo pensamento e pela liberdade, a segunda pela extensão e pelo movimento. Na moral, o espiritualismo, é uma teoria que defende que a vida humana admite os seus próprios fins (a justiça, a liberdade, etc) que não poderiam reduzir-se aos únicos interesses do vivo, podendo até mesmo ser levados a contradizê-los.

No seu sentido metafísico, o termo espiritualismo refere-se a uma longa tradição que vem de Anaxágoras (séc. V a.C.) e que se perpetua em toda a filosofia cartesiana (Descartes, Malebranche, Espinosa, Leibniz...). Para Anaxágoras, o espírito é o noús, ou seja, «a alma» ou «o sopro» fluido e movente, que se opõe à matéria, sólida e inerte. A filosofia idealista no seu conjunto admite, também ela, esta oposição categórica entre o espírito (princípio de unificação e de conhecimento) e a matéria (estendida e inerte) assim como a supremacia do primeiro.
O dualismo cartesiano radicaliza ainda esta oposição, mas reconhece a autonomia da matéria: esta última obedece às suas próprias leis (mecanismo) e, portanto, já não é totalmente subordinada ao espírito. Além disso, na obra de Descartes, a consciência deixa de ser um «sopro» ou uma «chama» para se tornar um princípio de conhecimento e de representação do universo inteiro.
A questão que será posta a seguir diz respeito às relações (dificilmente inteligíveis) entre duas substâncias consideradas como radicalmente estranhas uma à outra. No séc. XX, um debate muito animado continua a opôr os adeptos do materialismo e os adeptos de um espiritualismo metafísico renovado. Segundo Bergson (que representa esta segunda posição), o espírito não é um efeito do corpo, e a vida no geral é irredutível à matéria. Longe de ser a chave do funcionamento do espírito, o cérebro é só o instrumento e o suporte: é apenas "o conjunto dos dispositivos que permitem ao espírito responder à acção das coisas através de reacções motrizes [...] cuja exactidão assegura a perfeita inserção do espírito na realidade"*.
*
Henri Bergson, "A Alma e o Corpo" in A Energia Espiritual.

Materialismo

No seu sentido pejorativo, materialismo é a atitude ou a doutrina caracterizada por uma ligação aos bens materiais (riqueza, etc) e por uma ausência de ideal.
Na Filosofia, é uma teoria segundo a qual, a matéria é a única realidade existente (monismo), ou a matéria é a realidade fundamental a partir da qual se explica a vida espiritual (Marx, Freud, Nietzsche - chamados filósofos da suspeita). O materialismo opõe-se a idealismo.
A palavra «materialismo» é equívoca. Por um lado, é muitas vezes utilizada numa intenção polémica: ser «materialista», é ser acusado de explicar o «superior» (o espírito) pelo «inferior» (a matéria), ou então recusar Deus, a imortalidade da alma e, no geral, a religião. Materialismo pode ser neste sentido sinónimo de ateísmo. O termo adquire um valor positivo a partir do séc XVIII, acompanhando o desenvolvimento da crítica dos dogmas religiosos. Uma outra dificuldade resulta da diversidade dos conceitos da matéria própria das diferentes filosofias materialistas, desde o antigo atomismo até ao desenvolvimento da ciência moderna. Finalmente, em história e em sociologia, principalmente no seguimento de Marx, «materialismo» pode designar, não um sistema geral do mundo, mas um método de explicação dos comportamentos sociais a partir das estruturas materiais (económicas) da sociedade (materialismo histórico).

Materialismo Dialéctico
Concebido nos anos 30 na URSS, o materialismo dialéctico é a elaboração dogmática de certos princípios gerais da filosofia de Marx num sistema metafísico, explicando a globalidade dos processos da natureza e da sociedade através de leis «dialécticas» da matéria em movimento. esta filosofia oficial apoiou-se em determinados textos de Engels, principalmente na Dialéctica da Natureza.

Materialismo Histórico
Filosofia marxista da história, segundo a qual a arquitectura completa de uma sociedade, assim como as leis que presidem às suas transformações, explica-se pela natureza e pela evolução da sua estrutura económica. Os indivíduos agem então na história em função das forças sociais que as determinam, e não dos ideais e dos objectivos que fixam conscientemente.

Positivismo

O positivismo caracteriza-se pela atitude de confiança em relação aos métodos e aos resultados da ciência experimental. Por extensão, qualquer filosofia que privilegie o conhecimento científico deve combater a metafísica.

Esta atitude científica substitui por uma lei invencível do progresso do espírito humano, as crenças teológicas ou as explicações metafísicas. Ao tornar-se científico, o espírito renuncia à questão do «porquê?», ou seja, renuncia procurar a explicação absoluta das coisas. Limita-se ao «como?», ou seja, à formulação das leis da natureza, aproveitando, por intermédio de observações e de experiências repetidas, as relações constantes que unem os fenómenos.

O positivismo criou também a escola filosófica que se desenvolveu nos anos de 1920-1930 em Viena. O seu projecto consistia em basear a ciência numa linguagem inteiramente redutível a formulações de observações directas, e denunciar na metafísica um conjunto de proposições não significantes por serem experimentalmente inverificáveis (empirismo lógico).

Henri Bergson (Paris, 1859 - idem, 1941)

Filósofo e escritor francês. Esmeradamente educado, em 1900 é nomeado professor no Colégio de França, onde as suas aulas obtêm um êxito sem precedentes. Membro do Instituto de França desde 1901, ingressa na Academia Francesa em 1914. Em 1928 obtém o Prémio Nobel de Literatura. Morre durante a ocupação alemã de França após expressar a sua adesão moral ao catolicismo, apesar da sua origem judia.

Desfruta em vida de uma popularidade e de uma aceitação insólitas num pensador. A sua filosofia está em estreita relação com o positivismo do século XIX e com o espiritualismo francês, com os quais tenta elaborar uma original simbiose. Definitivamente, o que busca é uma superação do positivismo. Num clima positivista, de aparecimento da crítica científica, de polémica espiritualista, de neokantismo, tudo isso condicionado pelo auge da ciência, Bergson aborda o problema da relação sistemática do conhecimento científico e a metafísica. Para a superação do positivismo, Bergson apoia-se no positivismo evolucionista de Spencer. Esforça-se por transferir os princípios positivos para o campo das ciências humanas e da religião, valendo-se de um princípio de explicação de toda a realidade: a evolução.
A sua ideia básica é que a realidade é duração real. E o local em que se evidencia que a realidade é duração é a consciência, onde se unem a experiência e a intuição. A intuição é a alma da verdadeira experiência, o acto que nos coloca dentro das coisas; não um acto estático, mas uma actividade viva, a própria duração da realidade.

Para Bergson, o homem é capaz de superar o domínio da inteligência e de guardar o impulso criador, superando o nível estático da moral e da religião até transcender plenamente o élan vital, o impulso vital, que definitivamente, é de Deus, se não é o próprio Deus.

Sábado, Abril 16, 2005

Crash

Amigos, tive daqueles pequenos grandes problemas com o portátil.
Como sou uma criatura organizadíssima, não tinha nada, ou quase nada gravado em cd's. Sim, perdi tudo menos a dignidade (o amor próprio ainda está a voltar ao lugar), portanto àqueles com quem já troquei emails, só posso aguardar que tenham a bondade em fazê-lo novamente. Teria muito gosto em manter o contacto. :)

Sexta-feira, Abril 15, 2005

Escola Cultural

(..) O olhar original do Homem sobre si próprio – ao abrir, pela consciência, o desdobramento que faz dele dois – é axiológico. O eu vê-se e desgosta-se de si, por incoincidência de si com-sigo, pela desvalia de si que essa incoincidência manifesta e é. Escreveu Ortega, em Unas Lecciones de Metafisica: “Lo que hace más falta es ser”. O que ao Homem faz falta, e isso se revela no olhar de si para si, é ser: é ser ele próprio. Isso é o que o eu experiencia, ao ver-se no eu visto. O poeta-filósofo português Fernando Pessoa escreveu assim, numa quadra simples e quase popular:

“Brincava o menino
Com o carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse: eu sou dois”

Pois sou. Só que o segundo põe a nu que eu afinal não sou eu, que eu é algo, é alguém que tenho para ser e que tenho, no fim de contas, de ser, mas que não estou (ainda) a ser. Este é o imperativo categórico axiológico que retumba na consciência do Homem: tens de ser tu mesmo, plenamente; tenho de ser eu mesmo, plenamente; essa plenitude é a plenitude do valor que eu sou.
Assim, a actividade de aproximação a si mesmo que o eu desde logo empreende e é a Educação, é também o culto e a cultura de si mesmo, é também o crescimento de si em valor. E assim vão emergindo e crescendo os valores. Vão emergindo como os frutos nas árvores do pomar. Vão emergindo plurais e diversos, provindo todos da fonte de vida única que alimenta o pomar inteiro, árvore por árvore, como na humanidade acontece pessoa por pessoa, sendo aí a humanidade o pomar. (...)

Manuel Ferreira Patrício, Presidente da Direcção da AEPEC
(Se tiver mais tempo, leia o artigo todo sff.)

Quinta-feira, Abril 14, 2005

Educar - Uma questão de Ser

Até meados do século a educação referia-se a um período da vida, ao período escolar. Fazíamos um curso, na melhor das hipóteses um curso universitário, para "nos prepararmos para a vida". E depois de recebermos o diploma, considerávamo-nos preparados e íamos viver.
A existência humana dividia-se em duas partes, a da educação e a da vida. Hoje e a partir da evolução da segunda metade do século, sabemos que não é assim. Entendemos a educação como processo permanente da vida toda, desde que nascemos até que morremos, através das suas diferentes fases, de crianças, de jovens e de adultos.
Nesta perspectiva, o que é educar? Em primeiro lugar, não é ensinar. Ensinar é uma função importante, continua a ser importante, mas não é, de longe, a fundamental. Porque, em educação o essencial não é transmitir conhecimentos mas criar condições para que as pessoas cresçam, se desenvolvam, sejam, até se realizarem em plenitude. Educar, portanto, abarca imensamente mais do que ensinar. Não se trata de obter conhecimentos, mas de crescer em todas as dimensões da vida. Não é, portanto, uma questão de ter, de ter conhecimentos que se transmitem e se adquirem como nas transações de uma feira de trocas, que se vendem e se compram como numa grande superfície comercial, cuja propriedade se defende como acontece com os direitos de autor ou com as patentes. Não é objectivo de uma pedagogia bancária, mas de uma pegadogia problematizadora (Paulo Freire).
Educar é uma questão de Ser. E de crescer. A partir daquilo que recebemos pelo nascimento, (latim nascere, natum), do que somos por natureza, e das condições favoráveis que nos possam ser criadas, e através do desenvolvimento e do exercício de todas as nossas capacidades, crescer até atingirmos a plena realização como pessoa, como cidadão, como profissional.

José Ribeiro Dias, "A Educação na viragem do milénio: De Edgar Faure a Jacques Delors. Ensaio de enquadramento conceptual" in Educação: Caminho para o séc. XXI - Actas do I Colóquio de Filosofia da Educação.

Quarta-feira, Abril 13, 2005

What is the meaning of the rise in popularity of philosophy?

Where's Stephen?" asks Michael Lacewing, scouring the emptying hall. "Ah," he says, spotting his star speaker, "surrounded by six girls - as usual." It's six schoolgirls to be precise, but Lacewing is not trying to be sardonic.
Stephen Law may have huge teen appeal, but he has children of his own and the stage he has just vacated was used for nothing more lascivious than a talk to sixth formers, for Law is a university lecturer and author of two successful books of philosophy for younger readers, The Philosophy Files and The Outer Limits.
Law is but one public face of a remarkable increase in the popularity of philosophy among 16- to 18-year-olds. At the last sitting, 23% more students were answering questions about the theory of knowledge, Plato's Republic or Marx and Engels's The German Ideology in the intermediate philosophy AS examination than in the year be fore. At the same time, 19% more than in 2003 were writing about the philosophy of mind, Aristotle's Nichomachean Ethics or Nietzsche's Beyond Good and Evil for the final A2 exam.
What explains philosophy's increasing popularity? Lacewing is a university lecturer whose company, A-level Philosophy, organises conferences (which I sometimes speak at) for the growing number of students and teachers taking the subject. He thinks it's just a matter of supply catching up with demand. "The meaningful questions of life have always exercised the adolescent mind," he says. "What has changed is the opportunity to express that curiosity."
Graveney, a multi-ethnic comprehensive in Tooting, south London, is a case in point. Until three years ago, when the first 14 teenagers took the new AS course, philosophy wasn't even available. Now, the school has 56 students taking the subject, plus a further 52 taking a philosophy A-level by another name by studying critical thinking or by taking the philosophy of religion and ethics options in religious studies.
The head of philosophy at Graveney, Rebecca Woodhall, says that the subject is "seen as being intellectually macho". Her students confirm this. Sam Watson, who was first turned on to philosophy by The Matrix films, says, "I thought I wasn't being challenged enough before I took philosophy." Lisa Mellany enjoys it because "I really like arguing" and, as her friend Ruth Taylor says, "in philosophy your opinion's worth something".
The subject also has the unusual merit of being interesting for its own sake. "With some subjects you're learning things to write down in exams," says another Graveney student, Alex Crede. "But in philosophy what you're learning you actually find interesting, which makes a change." So
interesting that, as Jim Turner says, "you can leave a philosophy lesson talking about what you did".
These reactions would not surprise Anthony O'Hear, director of the Royal Institute of Philosophy. "I would be inclined to say that philosophy is perennially interesting to young people because it deals with questions many puzzle about in their youth, but which most forget about in the hubbub of adult life." The institute has helped to meet this demand by supplying visiting lecturers to schools, offering grants for conferences, and publishing a journal, Think, aimed at both school students and general readers, which Stephen Law edits.
The philosophy A-level is very different from the philosophy for children (P4C) programmes that have periodically grabbed the attention of the media. P4C is aimed at younger children, from primary school upwards, and centres on a process called "Socratic dialogue" rather than the texts and arguments of the western philosophical tradition. The aim of P4C is to develop critical thinking skills and the ability to discuss issues in groups. While the A-level shares these aims, it is also a pretty heavyweight introduction to the arguments of the greats, from Plato to John Rawls. There is no messing with gentler introductions such as Sophie's World or Alain de Botton.
For the AS examination, theory of knowledge, which deals with the fundamental questions of what knowledge is and whether we know anything at all, is compulsory. This is real, in-at-the-deep-end stuff. You may have no clue what the difference is between foundationalism and reliabilism, or what it means to say knowledge is justified true belief, but plenty of 17-year-olds are perfectly conversant with these ideas, even if it is the part of the course they tend to enjoy the least.
In addition, students choose between moral philosophy and the philosophy of religion, options that tend to fire their enthusiasm because they relate to questions every curious and intelligent teenager asks: Is there a God? Why should I be good? Should I eat meat? They also study a classic text by Plato, Descartes, Marx and Engels, or Sartre.
At A2 level, they will move on to the philosophy of mind, political philosophy or the philosophy of science; study another text by Aristotle, Hume, Mill, Nietzsche, Russell or Ayer; and undertake an extended synoptic essay, in which they draw together related threads of the course according to their own interests.
For those hidden philosophy students who are nominally taking religious studies but in reality are focusing entirely on studying ethics and the philosophy of religion, the syllabus is just as demanding, though perhaps more accessible, due to the absence of the set texts and the theory of knowledge. Issues such as the ethics of abortion, euthanasia and animal rights are guaranteed to spark interest among the students. They also grapple with the arguments for the existence of God and the problem of how a benevolent deity could allow needless suffering, such as that caused by the Asian tsunami.
The interest of sixth formers is being sustained through to the point at which they apply to university. Data from the Universities and Colleges Admissions Service shows that overall applications to philosophy degrees rose by 20% between 2000 and 2003, the last year for which admissions data is available, compared with a 7.8% rise for applications in general. Between 2002 and 2003, philosophy applications went up by 15.5%, compared with 3.3% for all subjects.
Brendan Larvor, head of philosophy at the University of Hertfordshire, says he is seeing "more and more students who have done philosophy A-level" among applicants. He sees this as a welcome development, because "most other philosophy undergraduates spend the first year wondering what philosophy is and whether they like it".

Julian Baggini, editor of The Philosopher's Magazine
Tuesday April 5, 2005 in The Guardian

Terça-feira, Abril 12, 2005

De Olhos Abertos...

"Contudo, nem sempre as coisas são tão más como aparentam ser e não é justo catalogar as pessoas com determinadas instabilidades emocionais como sendo não normais e necessitarem automaticamente de tratamento psicológico, psiquiátrico (...) Às vezes uma conversa ajustada, (...) podem ser mais eficazes do que horas e horas a remexer num passado enterrado. É para isso que serve o Aconselhamento Filosófico."

Amândio Fontoura e Conceição Sampaio
são os autores do 1º Livro em Português sobre
Aconselhamento Filosófico, intitulado De olhos abertos... para uma Filosofia de Bem-Estar, Editora Hugin, 2004.

Sábado, Abril 09, 2005

Investigação

Parece assim que as nossas convicções ou «opiniões filosóficas» não têm tempo para entrar longamente em diálogo com os grandes génios da tradição filosófica, em virtude da urgência das decisões concretas que a vida nos impõe. Mas o dilema que resulta desta situação volta a colocar-nos perante novos problemas. Ou temos que atrasar indefinidamente, por assim dizer até ao fim da vida, a tomada de posição sobre as grandes ideias que não só nos fazem compreender a existência, mas nos permitem orientá-la e vivê-la, ou devemos a seu respeito decidir-nos numa meia obscuridade, sem verdadeiro conhecimento de causa e sem um processo suficientemente instruído.
No primeiro caso, transforma-nos-íamos pouco a pouco em boas cabeças pensantes, mas paralelamente a nossa existência vivida desenvolver-se-ía muitas vezes de modo não filosófico, como que à margem do trabalho filosófico. No segundo caso, a exigência do filósofo aproximar-se-ía da do homem comum, para o qual as opiniões existenciais - isto é, as convicções em função das quais a vida concreta se orienta diariamente - se formam sob o impacto de elementos menos racionais do que afectivos ou empíricos.
O prolongamento destas considerações de ordem geral leva-nos a compreender que esta alternativa, que não tem nada de fictício apresenta uma saída aceitável. É o devir temporal e progressivo do homem, do filósofo, no seu vaivém entre a existência vivida e o pensamento. Um verdadeiro caminho de pensamento nunca se traça de modo puramente solitário, sem o diálogo com o pensamento de outros, nem nunca totalmente à maneira de fiel copista e comentador. Quanto a este diálogo com as filosofias que nos precederam ou que nos acompanham, é preciso acrescentar que cada um de nós entra nele na medida das suas possibilidades. É precisamente aqui que é válido o adágio escolástico «quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur». Diremos que esta resposta é a do bom senso, em função da qual aparece a dupla conotação utópica dos dois modos da alternativa apresentada. É efectivamente utópico pensar que se possa filosoficamente esperar até ao fim da sua vida para tomar uma decisão acerca dos valores em causa na própria existência. Mas também é utópico julgar que, no caso da filosofia, esta decisão possa ser tomada irracionalmente ou pseudo-racionalmente, sem um sério confronto com o pensamento filosófico anterior.

Michel Renaud in "O Ponto de Partida das Meditações Cartesianas de Husserl", Revista Portuguesa de Filosofia, tomo 40, Actas do II Colóquio Português de Fenomenologia, 1985 [4], 198 pp.

Sexta-feira, Abril 08, 2005

Inteligência Espiritual

O QEs é uma capacidade tão antiga como a Humanidade, mas o conceito só foi totalmente desenvolvido pela primeira vez neste livro. Até agora a ciência e a psicologia científica têm tido dificuldades em discutir o sentido e o seu papel nas nossas vidas. A inteligência espiritual tem sido uma coisa estranha para os académicos porque a ciência existente não está equipada para estudar coisas que não possam ser medidas objectivamente.

Existem na verdade provas cientificas do QEs nos recentes estudos neurológicos, psicológicos e antropológicos da inteligência humana. Os cientistas já fizeram a maior parte da investigação básica que revela as fundações neurais do QEs, mas o paradigma do QI dominante obscureceu as investigações posteriores. Este livro irá reunir quatro correntes de investigação especifica que até agora permaneceram separadas devido à natureza altamente especializada da ciência existente.

Primeiro, no início dos anos 90, a investigação levada a cabo pelo neuropsicólogo Michael Persinger, e mais recentemente, em 1997, pelo neurologista V.S.Ramachadran e a sua equipa da Universidade da Califórnia, sobre a existência de uma "área de deus" no cerebro humano. Este centro espiritual incorporado situa-se entre as ligações neurais nos lobos temporais do cérebro. Em scans tirados com topografia através da emissão de positrões, essas áreas neurais iluminam-se sempre que os sujeitos a investigação são expostos a discussões sobre temas espirituais ou religiosos.

Segundo, o trabalho do neurologista austríaco Wolf Singer, nos anos 90, sobre o "problema da ligação", mostra que há no cérebro um processo neural com vista a unificar e dar sentido à nossa experiência - um processo neural que literalmente "liga" as nossas experiências. Antes do trabalho de Singer sobre a unificação e oscilações neurais síncronas em todo o cérebro, os neurologistas e cientistas cognitivos só reconheciam duas formas de organização cerebral neural.
Uma destas formas, as ligações neurais em série, é a base do nosso QI. Os tractos neurais ligados em série permitem que o cérebro siga regras, que pense lógica e racionalmete, passo a passo. Na segunda forma, a rede de organização neural, feixes de mais de cem mil neurónios estão ligados de uma forma acidental a outros feixes maciços. Estas redes são a base do QE, a nossa inteligência ligada à emoção, que reconhece padrões e constrói hábitos.....O trabalho de Singer sobre as oscilações neurais unificadoras oferece a primeira sugestão de uma terceira espécie de pensamento, de um pensamento unificador, acompanhado de um terceiro modo de inteligência, o QEs, que pode lidar com estas questões.

Terceiro, na sequência do trabalho de Singer, o trabalho de Rodolfo Llinas, em meados de 90, sobre o sono e a consciência desperta e a ligação dos factos cognitivos no cérebro, foi muito favorecido pela nova tecnologia MEG (magno-encefalográfica), permitindo estudos em todo o crânio dos campos eléctricos oscilantes do cérebro e dos seus campos magnéticos associados.

Quarto, o neurologista e biólogo antropólogo Terrance Deacon publicou recentemente novos trabalhos sobre as origens da linguagem humana (The Symbolic Species, 1997). Deacon mostra que a linguagem é uma actividade unicamente humana, essencialmente simbólica e centrado no sentido que co-evoluiu com rápido desenvolvimento nos lobos frontais do cérebro. Nem os computadores existentes, nem sequer os macacos mais evoluídos (com raras e limitadas excepções) conseguem usar a linguagem, porque lhes falta a capacidade do lobo frontal para lidar com o sentido. Este livro irá mostrar que todo o programa de investigação de Deacon para a evolução da imaginação simbólica e o seu consequente papel no cérebro e evolução social corrobora a faculdade da inteligência a que chamamos QEs.

Danah Zohar e Ian Marshall in Inteligência Espiritual

Leitura sugerida pela Beatriz, à qual agradeço muito :)

Quinta-feira, Abril 07, 2005

«Fundamentos para uma Reflexão Ética em Merleau-Ponty»

Para quem goste de Merleau-Ponty e de António Damásio, deve consultar um excelente artigo do Dr. Jorge Dias aqui e ler outros igualmente interessantes na Metacrítica.

"A distinção entre doenças do cérebro e da mente, entre problemas neurológicos e psicológicos ou psiquiátricos, é uma herança cultural infeliz que penetra na sociedade e na medicina e reflecte uma ignorância básica entre o cérebro e a mente. As doenças do cérebro são vistas como tragédias a quem não se pode atribuir culpas, enquanto que as doenças da mente, no comportamento e nas emoções, são vistas como inconveniências sociais nas quais os doentes têm muitas responsabilidades. Aqui, a falta de força de vontade é o problema primário".
Cfr. António Damásio, O Erro de Descartes, p.60.

Segunda-feira, Abril 04, 2005

Psitacismo

1. Perturbação psiquíca que consiste em repetir as palavras sem ter em mente as idéias por elas representadas.
2. Palavreado inútil verborréia
3. Processo de aprendizagem por memorização apenas.

Quinta-feira, Março 31, 2005

Ciências Cognitivas

Do latim cognitio, de cognoscere, «conhecer».
A expressão está no plural porque se refere a saberes recentes, diversos e, ainda agora, mais ou menos fechados. Se agruparmos, apesar de tudo, esses saberes sob uma certa denominação, é porque têm um objecto comum: a cognição, ou seja, a função psíquica que assegura a recolha, o armazenamento, a transformação e o tratamento das informações que recebemos do mundo exterior, e a partir das quais elaboramos o conhecimento do real. Perceber, raciocinar, aprender, lembrar, falar… são actividades que suscitam interrogações e análises desde a Antiguidade.
Durante muito tempo objectos privilegiados da reflexão filosófica, estas actividades deram origem progressivamente a saberes especializados na investigação de uma ou outra de entre elas, ou de uma ou outra das faculdades humanas das quais depende a sua possibilidade: as neurociências (neurologia, neurofisiologia…), a psicologia, a linguística, às quais se acrescenta hoje a informática, que fornece ao estudo dos mecanismos do pensamento o modelo da «inteligência artificial». O projecto de unificação que leva a qualificar de ciências cognitivas o conjunto dos discursos que tentam descobrir as características e condições de possibilidade da faculdade de conhecer, só se baseia no postulado até certo ponto. Novas ligações poderiam ser evidenciadas entre os diferentes suportes e características dessa faculdade, principalmente no que diz respeito à parte de mistério – que continua a cercar a passagem do cerebral ao mental – que poderia ser reduzida. Como é que o cérebro pode produzir pensamento e conhecimento? Eis, no fundo, a questão para a qual as ciências cognitivas ambicionam encontrar um dia uma resposta única. É a amplitude desta ambição que motiva o procedimento unificador de alguns, ao passo que outros duvidam que o conhecimento do cérebro possa alguma vez reunir-se ao das actividades mentais tais como as entendem a filosofia e as ciências humanas.

Quarta-feira, Março 30, 2005

As Ciências

Do latim «scietia», derivado de scire, «saber». No seu sentido lato é sinónimo de saber em geral e mesmo de habilidade técnica. Nos gregos epistemé, é um conhecimento simultaneamente eminente (um saber superior), universal (opõe-se ás particularidades) e teórico (difere das aptidões práticas); para os gregos a Filosofia é essa ciência suprema. Para os modernos é um conhecimento científico positivo (a «ciência experimental»), que se apoia nos critérios precisos de verificação permitindo uma objectividade dos resultados.

A filosofia das ciências (ou epistemologia) enuncia alguns problemas:

1. O problema da demarcação. Como é que reconhecemos que um conhecimento é científico? A resposta mais simples é: na possibilidade de o controlar através de factos pela experimentação. Dispomos então de um critério de distinção entre ciência e não ciência. Por exemplo, a filosofia não seria uma ciência, contrariamente ao que pensavam os Gregos, porque os seus argumentos, mesmo racionais, escapam ao conteúdo experimental.
2. A unidade da ciência. Devemos falar da ciência ou das ciências? Existem várias especialidades científicas, a ciência é portanto múltipla nos seus objectos. Mas possui uma unidade de método, sem a qual não poderíamos definir um critério geral que distinga a ciência da não ciência.
3. A classificação das ciências. A unidade do método não impede de classificar as ciências segundo o seu objecto; ex: o quadro enciclopédico de August Comte (positivismo). Por outro lado, essa unidade, apenas diz respeito às ciências experimentais. Não existirão outros tipos de ciências?
Podemos efectivamente distinguir 3 tipos de ciências:
a) As ciências experimentais ou empíricas. Referem-se a um dado objecto na experiência e validam-se através de controlos experimentais.
b) As ciências «formais». São a Matemática e a Lógica, baseadas na dedução a partir de axiomas. Nesta área, não há qualquer necessidade de verificação experimental. Podemos até mesmo discutir aqui o nome de «ciência» visto que, puramente formal, a Matemática e a Lógica não tem objecto exterior à sua construção.
c) As ciências humanas (Filosofia, História, Sociologia, psicologia, etc.). O seu estatuto é bastante controverso. Ou consideramos, com o positivismo que, se merecem o nome de ciências, podemos aplicar-lhes os métodos e a linguagem da ciência experimental: reduzem-se então a um caso especial desta última, ao lado das ciências da natureza. Ou pensamos, ao contrário, com o filósofo alemão Dilthey (1833-1911), que há motivos para distinguir entre «ciências da natureza» e «ciências do espírito» e portanto que, em virtude da particularidade do seu objecto (o homem), as ciências humanas dependem de um outro tipo de processo, fundado não sobre a verificação experimental, mas sobre a interpretação das intenções humanas (hermenêutica).

Terça-feira, Março 29, 2005

Fenomenologia

Do grego phainomenom, «o que se mostra», e logos «discurso»,«ciência» - Ciência dos Fenómenos.
O termo fenomenologia aparece na obra de Jean Lambert em 1734, com o sentido de «doutrina da aparência». É em seguida retomado por Kant e sobretudo por Hegel que publica a Fenomenologia do Espírito em 1807. Esta última é a história do desenvolvimento progressivo da consciência, desde a simples sensação até à razão universal ou «saber absoluto». Mas foi com Husserl, à beira do séc. XX, que a fenomenologia nasceu verdadeiramente, não tanto como uma escola ligada a uma doutrina ou a um sistema, mas mais como um movimento de pensamento impondo a si próprio a tarefa, sempre renovada, de descrever o que aparece enquanto aparece, graças a um método: o «método fenomenológico».
Quando a consciência está absorvida na crença das coisas, ingenuamente, ignora a essência do fenómeno (do que nos aparece e não do que se "vê"), e então o método fenomenológico consiste num colocar entre parêntesis, numa suspensão de qualquer crença imediata e ingénua na existência das coisas - a chamada epoké - que é uma redução ou recondução desse mesmo fenómeno à consciência como à sua fonte de constituição.
A consciência deve desde logo ser compreendida como um puro acto de «se lançar na direcção de», que Husserl nomeia de intencionalidade: "Qualquer consciência é consciente de alguma coisa". A redução é dita transcendental (do latim transcendere «passar para além», e que independentemente de qualquer experiência torna possível qualquer conhecimento), porque desvela a consciência, e sem isso os fenómenos não teriam qualquer sentido nem qualquer ser.
Husserl (1859 -1938), deixou como discípulos Heidegger, Merleau-Ponty e Max Scheler.

Ideias

Num debate ou explanação como é que se devem trocar ideias, pressupondo que não hajam verdades absolutas, mas sim algumas certezas científicas bem como outras teorias explicativas a considerar?

No caso do assunto ser rotineiro, fútil ou mesmo banal, a opinião (doxa) serve sempre para percebermos que somos todos diferentes, ou seja, não passando da mera opinião o máximo que podemos conseguir é a simpatia de alguns e a antipatia de outros, o que ultrapassando o plano pessoal não leva a mais nada sem ser o prazer duma conversa leve. A doxata só serve para marcar ponto e fazer conversa. Aqui não há grande exigência ou rigor na conversa. "Ganha" em caso de disputa, claro, o melhor orador. Quando não há disputa, "ganha" o mais simpático.
No caso do assunto ser sério e merecer mais esforço de reflexão, deveremos, se queremos esclarecer alguém, elevar o tom do discurso apelando e recorrendo a teorias explicativas e/ou científicas, como "bengalas" (como já vi chamarem)? Ou manter a opinião (doxa) esperando credibilidade sem argumentos?

É preciso não confundir o respeito que se deve ter pelo outro em toda a sua igualdade e individualidade - enquanto ser humano e pessoa com direitos - com as suas opiniões.

Todos erramos, mas nem todos sabemos reconhecê-lo.

Sábado, Março 26, 2005

O Espaço Público

Vê-se que o espaço público falta cruelmente em Portugal. Quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as «opiniões» dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das crónicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal).
O «debate» é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimação de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático - que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem «em carne e osso», subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo.
José Gil, in 'Portugal Hoje - O Medo de Existir'

Quinta-feira, Março 24, 2005

A Culpa dos Males que nos Acontecem

Em todos os males que nos acontecem, olhamos mais para a intenção do que para o efeito. Uma telha que cai de um telhado pode ferir-nos mais, mas não nos desola tanto como uma pedra atirada de propósito por uma mão maldosa. O golpe, por vezes, falha mas a intenção nunca erra o alvo. A dor física é a que menos se sente nos ataques da sorte e, quando os infortunados não sabem a quem culpar pelas suas infelicidades, culpam o destino, que personificam e ao qual atribuem olhos e uma inteligência disposta a atormentá-los intencionalmente.
É o caso de um jogador que, irritado com as suas perdas, se enfurece sem saber contra quem. Imagina que a sorte se encarniça intencionalmente para o atormentar e, encontrando alimento para a sua cólera, excita-se e enfurece-se contra um inimigo que ele próprio criou. O homem sábio, que em todas as infelicidades que lhe acontecem só vê golpes da fatalidade cega, não tem essas agitações insensatas; grita na sua dor, mas sem exaltação, sem cólera; do mal que o atinge só sente os ataques materiais, e os golpes que recebe podem ferir a sua pessoa, mas nenhum atinge o seu coração.
Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

Terça-feira, Março 22, 2005

Picadelas

Mente-se por tudo e por nada. Mente-se para não incomodar nem afligir, para não se ser demasiado agressivo ou brutal, para não se dar má impressão, para não humilhar o outro; mente-se até para se ser simpático e corresponder ao que o outro ou a situação propiciam.
Notícias Magazine (DN) 2005.01.02
Continuamos a depositar no que se passa fora de nós expectativas enormes e a depreciar o que, bem instruídos e dentro de nós, podemos fazer com o que nos incomoda. Esta externalização excessiva, este quase vício de culpar alguém, penhora o futuro, obedece a uma trama, criteriosa e deliberada, de nos sentirmos sempre pequenos e desamparados, dependentes dos outros.
Notícias Magazine (DN) 2005.01.16

Sábado, Março 19, 2005

A Moralidade que Liberta

A evolução da humanidade produz a substituição dos instintos e dos impulsos por uma vontade que procura a justiça, por uma vontade que se quer livre e que procura o bem. Por isso é que o direito, fruto da razão, só existe na sociedade humana.
O progresso e o desenvolvimento das sociedades e da vida humana, são fruto do espírito que, consciente do seu próprio fim, procura a justiça e o bem. A evolução mede-se pela virtude moral, porém, a existência, por si só, do direito é algo meramente formal, pois o seu valor reside no grau de aprofundamento das consciências individuais.
À medida que a consciência moral se aprofunda, as acções não são feitas por mero dever mas são guiadas por um querer profundo e íntimo da própria vontade. Não se trata de um mero respeito pela lei, nem de estar apenas em conformidade com ela, mas do querer fazer íntimo que resulta da sua vontade própria. Deste modo, a lei moral perde o carácter de obrigação e transforma-se em puro querer, pura liberdade.

Quarta-feira, Março 16, 2005

Filosofia Prática

Ser filósofo não é apenas ter ideias subtis, nem mesmo fundar uma escola... É resolver alguns dos problemas da vida, mas em termos práticos.
Henry David Thoureau

Praticar a Filosofia é sondar o temperamento pessoal mas é também, e simultaneamente, uma tentativa de descoberta da verdade.
Iris Murdoch

Segunda-feira, Março 14, 2005

Insiste Em Ti Mesmo

Insiste em ti mesmo; nunca imites. A todo o momento, podes exibir o teu próprio dom com a força cumulativa de toda uma vida de estudo; mas do talento imitado de outro tens apenas posse parcial e momentânea. Aquilo que cada um sabe fazer de melhor só pode ser ensinado por quem o faz. Ninguém sabe ainda o que seja, nem o pode saber, enquanto essa pessoa não o demonstrar. Onde está o mestre que pudesse ter ensinado Shakespeare? Onde está o mestre que pudesse ter instruído Franklin, ou Washington, ou Bacon, ou Newton? Todo o grande homem é único.

Ralph Waldo Emerson, in 'Essays'

Tornamo-nos Mais Objetivos Depois de Reconhecermos a Nossa Subjectividade

Toda a arte da psicologia ou da ciência da psicologia, se lhe quisermos chamar assim, é baseada numa inversão do processo de objectividade. Não que não possamos tornar-nos objectivos, mas que apenas possamos tornar-nos objectivos depois de termos confrontado as nossas atitudes não objectivas, as nossas atitudes não racionais. Atingir uma objectividade honesta significa termos de saber quais os pontos da nossa natureza que são propensos a determinado preconceito, que parte de nós é defensiva, que parte de nós distorce o que ouvimos. E é necessária uma tremenda auto-honestidade para começar a remover essas distorções e a clarificar a nossa visão. De modo que só podemos atingir a objectividade depois de termos descoberto quais as áreas da nossa psique que não são objectivas.
Além disso, o reconhecimento básico da psicologia é que, lá bem no íntimo, a maior parte da nossa vida é desconhecida da mente consciente e que, quanto mais nos tornamos consciente dela, mais honestos e mais objectivos nos podemos tornar. Nós não vemos os outros com clareza, e o que obscurece a nossa visão são os preconceitos que a pessoa supostamente objectiva se recusa a reconhecer. Uma pessoa objectiva diria que não é responsável pela guerra, mas uma pessoa que sabe psicologia sabe que cada um de nós é responsável porque cada um de nós tem sempre uma área de hostilidade, que depois é projectada para hostilidades colectivas mais vastas.

Anais Nin, in 'Fala Uma Mulher'

Domingo, Março 13, 2005

Abrangência Literária

Lembremo-nos que a literatura, porque se dirige ao coração, à inteligência, à imaginação e até aos sentidos, toma o homem por todos os lados; toca por isso em todos os interesses, todas as ideias, todos os sentimentos; influi no indivíduo como na sociedade, na família como na praça pública; dispõe os espíritos; determina certas correntes de opinião; combate ou abre caminho a certas tendências; e não é muito dizer que é ela quem prepara o berço aonde se há-de receber esse misterioso filho do tempo - o futuro.

Antero de Quental
in 'Prosas da Época de Coimbra'

Influências

O ambiente e as pessoas que nos cercam são, definitivamente, aquilo que mais influencia o optimismo ou o pessimismo.

Inês Menezes, in Xis (Público)

Sexta-feira, Março 11, 2005

J. B. Schneewind on the Importance of Context


Context is indeed vital if we are to be historically careful about the meanings of the assertions of past philosophers. For undergraduates, context has an additional kind of importance. Explaining the different sorts of practical problems in which philosophers hoped to make a difference helps students see that what they are reading was not intended to be of merely academic interest. Philosophy nowadays does not have a large appeal to the public, not even to the undergraduate public. If we are to make the history of moral philosophy significant now for students, we need to show them that it mattered in its own time for reasons that went beyond the classroom. What that suggests is that moral philosophy might be as important now as it was then.
(J. B. Schneewind, “Teaching the History of Moral Philosophy,” in Teaching New Histories of Philosophy, ed. J. B. Schneewind [Princeton: The University Center for Human Values, 2004], 177-96, at 191)
Retirado de: Anal Philosopher (só pelo nome vão lá todos... vale mesmo a pena! :)

Quarta-feira, Março 09, 2005

Comunicação

Muitas vezes não entendemos o significado profundo das coisas porque as retiramos do seu contexto e não percebemos o simbolismo da linguagem.
Isabel Stilwell
in Notícias Magazine (2005.02.27)

Educação

A educação não gera o desenvolvimento. Só a boa educação o faz. A má, aqui como em tudo, é apenas um desperdício de tempo e recursos. A principal diferença entre a boa e a má educação é o bom senso.
João César das Neves
in Diário de Notícias (2005.03.07)